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O status do artista no Renascimento italiano

Por Juliana Rodrigues

Durante a Idade Média, o confronto entre a aparência externa do mundo e a lente espiritual proporcionou uma produção artística ligada à subjetividade e repleta de simbolismos religiosos. Como era a estética do sagrado que prevalecia, a arte tornou-se subjugada à religião e servia, em muitos casos, como suporte didático para a leitura do Evangelho. O trabalho de arte não encerrava valor em si mesmo, dependia do religioso.

Os artesãos, em sua maioria adeptos do Cristianismo, também rejeitaram o mundo natural, voltando-se para o domínio de inspiração religiosa. A arte medieval negava o sujeito e o objeto, pois ambos estavam a serviço do Senhor. Os vitrais de uma catedral gótica, por exemplo, não tinham o belo como função primeira, mas sim a de contribuir para a ascese ao divino e a compreensão da Palavra.

A ruptura com o Medievo ocorreu na arte principalmente em função do advento do capitalismo e da prática do mecenato, os quais modificaram a relação artesão/artista com a obra. O fato de esta última não estar mais sob a tutela da Igreja propiciou uma cultura laicizada. O pensamento do autor, livre dos dogmas religiosos, tornou-se soberano, embora sua atividade criadora estivesse sob o império do novo cliente: o mecenas.

Um aspecto fundamental da Renascença foi o humanismo. Este valorizava o homem, devido à sua capacidade criadora e autonomia perante Deus e a natureza, procurando compreendê-la dentro desta última e da história. As renovações religiosas, as concepções políticas e o naturalismo, por exemplo, são características deste processo.

Harmonia e proporção

O Renascimento caracterizou-se por um paradoxo que pode ser explicado pelo conceito de beleza.  Ela poderia ser encontrada tanto na natureza quanto no gênio dos antigos, embora este fosse o modelo primordial. A beleza ideal deveria ser racional e comumente era obtida através de estudos matemáticos e anatômicos.

Todos os mecanismos na busca do belo eram rigorosamente controlados, o que exigia novas formas de cálculo, inclusive com a introdução de algarismos arábicos. A beleza residiria na união entre proporção e harmonia, ambos reflexos da perfeição de Deus: era a proporcionalidade harmoniosa da divina natureza.Para tanto, o artista deveria obedecer rigorosamente a certas regras de proporção, acentuando a harmonia matemática do mundo e a determinação da natureza como um sistema universal de leis.

O homem do Renascimento estava muito envolvido com estudo da anatomia, a análise racional da proporção e com a invenção da perspectiva geométrica. Ver significava conhecer, ou seja, a experiência sensível guiava os sentidos, os quais não eram passíveis de qualquer engano.

Os artistas se tornaram instrumentos dos potentados que desejavam marcar para sempre seu fausto e sua glória. Era um privilégio possuir uma obra de arte de um artista renomado, pois era símbolo de pertença a uma classe alta na hierarquia social e significava, sobretudo, que se detinha o poder. As obras de arte eram insígnia de poder de seus proprietários. O comentário de Vasari ilustra o fato: “nos aposentos de Lourenço de Médici, o Magnífico, ostentando pinturas vulgares, mas de ótimos mestres”. Entretanto, o auxílio do encomendante oficial fazia-se necessário à sobrevivência dos artistas, que passaram a trabalhar nos ateliêsdos mestres sob encomenda para os príncipes que, por sua vez, tornaram-se mecenas, logo, colecionadores. Os mecenas exerciam o controle da arte ao proporcionarem as condições materiais para a produção artística, como pensões e prebendas.

Saber profano

O antigo artífice medieval foi elevado, no século XV, à condição de homem de idéias. Passou a ser visto como intelectual, sendo dele exigidos todos os conhecimentos e quase todas as técnicas. O ato não tinha mais valor se não estivesse associado a uma decisão mental, a qual era desvalorizada sem o ato. Por isso, havia um excepcional interesse e estímulo às técnicas durante o período renascentista. Elas representavam uma possibilidade de expressão de uma estrutura de pensamento emergente: o novo saber profano.

Durante a Renascença, os artistas passaram a merecer o status de gênios, aqueles que possuem o dom. Pela primeira vez, começaram a se impor como personalidades independentes, comparáveis a poetas e escritores. Os pintores e escultores renascentistas investigaram novas soluções para questões visuais ligadas à forma, sendo que muitos deles realizaram experiências científicas. Nesse contexto, surgiu a perspectiva linear na qual as linhas paralelas eram representadas em ponto de fuga. Os pintores passaram a ser mais exigentes com o tratamento da paisagem, dedicando maior atenção à representação de árvores, flores, plantas, distância entre montanhas e os céus com suas nuvens.

O efeito da luz natural e o modo como o olho percebe os diversos elementos da natureza tornaram-se novas preocupações. Assim, nasceu a perspectiva aérea, na qual os objetos perdem os contornos, a cor e o sentido de distância à medida que se afastam do campo de visão. Os pintores do norte da Europa, especialmente os flamengos, revelaram-se mais avançados que os italianos na representação das paisagens e introduziram o óleo como nova técnica pictórica, contribuindo para o desenvolvimento desta arte em todo o continente. Atribui-se a Jan Van Eick a invenção da tinta a óleo.

A temática da pintura resumia-se à produção de retratos, temas mitológicos e religiosos. Havia um naturalismo exacerbado na representação da figura humana. É importante observar a individualização dos rostos representados. Um bom exemplo é o retrato de Lisa Gherardini, ou Mona Lisa. A técnica empregada pelo artista, o sfumatto, confere um aveludado verossímil à pele da personagem.

A inovação da pintura Renascentista está, antes de tudo, ligada à questão da técnica científica. A tinta a óleo, o emprego da perspectiva, o claro-escuro e o naturalismo afastam-na, progressivamente, das reminiscências medievais.

*Juliana Rodrigues é formada em Educação Artística pela UERJ, onde dá aulas no curso de graduação em História da Arte, e é pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio. É, também, professora do Curso Renascença: a conquista da realidade, que acontece às segundas-feiras, até 4 de dezembro, no CCJF.