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Um mestre da narrativa intimista

Por Di Moretti - Roteirista de 'Latitude zero' e 'Cabra cega'

É melhor não deixar esfriar. Os sonhadores, antes de um filme, é uma experiência sensitiva à flor da pele que não pode cicatrizar. Impossível sair ileso de uma sessão como essa, com uma sucessão de sensações de prazer, como vinhos de boa safra, fluidos orgásticos e beijos apaixonados, nada técnicos. Apropriando-me de uma brincadeira proposta pelos próprios personagens, pergunto: ''Que filme é este?''

Para responder de pronto a este enigma saboroso é preciso, mais uma vez, conhecer e reconhecer a obra de Bernardo Bertolucci, um mestre da narrativa intimista. Diferentemente de suas experiências anteriores na condução de épicos de grandes orçamentos, como O último imperador (1987) ou Pequeno Buda (1993), este Bertolucci em cartaz é o mesmo de obras muito pessoais e pontuais, como O último tango em Paris e Assédio. Filmes em que simplicidade e inteligência convivem harmoniosamente.

A ação ou a falta dela acontece em um microcosmo específico, um apartamento. Uma locação basta para detonar fortes relações humanas. Este set restrito funciona como espelho do que acontece do lado de fora, na rua. Os dramas, as confusões, as revoluções acontecem lá fora e de alguma maneira estão refletidas aí dentro, nos íntimos jogos de poder, de sedução, de degustação.

O tempo no cinema é relativo. No caso de Os sonhadores, paira sobre o enredo, mas não o determina. Estamos em 1968, na Paris convulsionada pela rebeldia dos estudantes, um marco político do século 20, não por suas conseqüências práticas, mas pelo seu simbolismo eterno.

Os estudantes dessa época não sabiam que estavam fazendo história. E várias gerações foram influenciadas por esse episódio. Alguns pegaram em armas em países maculados por ditaduras militares ferozes. Outros se voltaram para dentro, na tentativa de entender que tipo de relação os seres humanos podem estabelecer com outros. A única certeza era que o mundo já não era o mesmo depois da revolta de Paris-68.

O mais perturbador é que este movimento nasceu, como o filme revela, na cinemateca da capital francesa. Os filmes talvez não possam fazer revoluções, mas podem sim provocá-las.

Os personagens de Bertolucci flertam com valores caros à geração 68: o amor livre, as drogas, a revolução cultural chinesa, o movimento pela paz mundial contra a guerra do Vietnã... Eles se desvirginam diante dessas sensações, dentro daquelas quatro paredes, até que o mundo exterior resolve invadir esse mundinho bastante particular. O destino deles não poderia ser outro. O cinema e os sonhos os uniram. A realidade e a rua os separaram.