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Livro narra a saga dos imigrantes trentinos

Com a presença de muitos descendentes de italianos, autoridades como o prefeito de Rio dos Cedros (SC), Hideraldo Gianpiccolo, o cônsul honorário italiano José Campestrini e o reitor da UNIASSELVI, José Tafner, o registro da trajetória do povo trentino foi lançado na noite de quarta-feira, dia 18, na Festitália, no Parque Vila Germânica, em Blumenau. O livro As Primeiras Famílias Trentinas de Rio dos Cedros é resultado da pesquisa do padre Mário Bonatti e do escritor e economista Mauro Lenzi. A obra condensa datas e nomes dos primeiros imigrantes, que tiveram que aprender a conviver com as peculiaridades do novo país. O livro descreve como foram os primeiros anos, de imensas dificuldades, como os imigrantes se adequaram à terra brasileira, como sobreviveram e prosperaram. A obra pode ser adquirida pelo valor de R$ 20,00 na lojas da Livraria LDV, nos campi da UNIASSELVI.

A população de Rio dos Cedros, cidade natal dos autores, ainda conserva, após 130 anos de imigração, os hábitos e a língua dos trentinos relatados no livro. Mário Bonatti e Mauro Lenzi narram histórias da formação dessa cultura miscigenada pelo tempo com fortes traços do passado. Entre os episódios, a aventura das famílias que deixaram o Tirol italiano, pelos idos de 1875, para aportar no Sul do Brasil, firmando solo na Colônia Blumenau. O livro aborda os costumes, a ocupação da terra, a evolução econômica e social e a história das cooperativas agrícolas em Rio dos Cedros e em Trento.

Na apresentação do livro, o professor José Tafner, reitor da UNIASSELVI - que através da Editora Asselvi fez a publicação - antecipa o conteúdo: “Essa obra não é um frio elenco de datas e de nomes. É uma viagem mágica que pretende fazer renascer, em cada riocedrense, a satisfação de voltar ao passado”.

Segundo o padre Mário Bonatti, uma obra como essa “não quer conservar os descendentes de trentinos embalsamados com a mesma cultura de Trento, não”. No Brasil, 90 por cento dos italianos de Santa Catarina, do Vale do Itajaí, são trentinos. “Creio que está aqui no Vale – o que buscarei comprovar em pesquisas – a maior concentração de descendentes de trentinos do mundo, isso, como região habitada por descendentes. Nós éramos 15 por cento no início da imigração, em relação aos alemães, e hoje somos 60 por cento da imigração do Vale do Itajaí – fora aqueles que saíram, foram para outros lugares. Então nós temos uma força que começou a tomar consciência há 30 anos, no centenário. Não tinha Festa Trentina, não tinha corais em quantidade, como hoje, não havia escolas de línguas, festividades etc. E essa consciência vai se mantendo. O Vale do Itajaí, eu entendo que é uma região verdadeiramente cosmopolita, como é São Paulo, como é Nova York, e como é Berlim, por exemplo. Dentro da Alemanha há esta cidade cosmopolita, que parece até diferente, muito mais bonita do que as outras cidades. E por quê? Porque nela se respira não uma cultura, apenas, mas várias culturas.”

O autor entende que “não devemos deixar que se apaguem as tradições, a cultura. Além daquilo que já conhecemos dos italianos – a cultura, os cantos, a comida, o gênio italiano -, nós temos algumas qualidades pessoais, humanas. Do italiano diz-se que é um povo fisicamente robusto (os trentinos), moralmente sadio, gente séria, trabalhadora e leal, com um sentido religioso realmente sólido, sem superstições, nem muitas divagações. E vivendo até hoje, pelo mundo inteiro – é o único grupo italiano que se mantém unido.”

Padre Mário Bonatti lembra que o Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIASSELVI) está criando um museu para manter as três culturas – italiana, alemã e brasileira – convivendo juntas, e também criou o Instituto Trentino-Brasileiro. O objetivo é fazer um centro de estudos para manter essa cultura, que vai produzir futuro. “Conservar a cultura italiana, trentina, é não só uma coisa linda para nós, descendentes, mas é também um projeto que interessa ao Brasil. Não podemos deixar que a televisão faça do Brasil uma geléia geral, sem cor nenhuma. O Brasil terá as cores das grandes etnias que formam esse grande país. Mesmo com os defeitos que tem, o Brasil tem uma base universal das maiores do mundo. O escritor Darcy Ribeiro dizia que o Brasil é o laboratório racial da humanidade. Aqui se integram culturas que só agora, na Europa, estão fazendo o mesmo, ou seja, a se misturarem os povos. Em vez de fazerem a guerra, fazerem a paz.”

 “Se nós quisermos conservar esse patrimônio cultural que é o italiano-trentino, temos que falar a língua italiana”, afirma padre Bonatti. “Quem puder alcançar um dialeto, melhor – o dialeto é um tesouro lingüístico, não tenho dúvidas -, mas ao menos a cultura italiana. As pessoas de nossa região têm uma responsabilidade muito grande para manter isso. Porque nós temos consciência desse valor. Porque se até agora o italiano se conservou nas famílias, por tradição, daqui para a frente ou ele se mantém pelo cuidado, pela educação, com capricho, ou ele pode desaparecer. Vai desaparecer se não se mantiver viva a cultura.”

Além do esforço que a UNIASSELVI faz - afirma o autor -, “cada um de nós, que teve a sorte de poder sair de Rio dos Cedros para estudar, para trabalhar, deve voltar para ser modestamente um mecenas, que pode contribuir para manter esse tesouro que é a nossa cultura. Esse livro quer contribuir modestamente para que nós conheçamos essa história passada, que alguém chamou de epopéia.”

Os autores

Mário Bonatti é natural de localidade entre Rio dos Cedros e Pomerode. Padre salesiano de Dom Bosco, foi ordenado sacerdote em Turim, Itália. No Brasil, realizou pesquisa para a tese de doutorado comparando o dialeto trentino de Rio dos Cedros com o que é falado em Trento (Mattarelo). Foi professor universitário de línguas e é autor de seis livros. Atualmente, reside em Lorena (SP).

Mauro Lenzi nasceu em Rio dos Cedros. Em 1970, iniciou o curso de Ciências Econômicas em Joinville. Em 1967 foi trabalhar no ex-Bank of London & South America e morou em várias cidades do Brasil. Deixou o Lloyds em 1992, passando a atuar como empresário do setor de factoring até 2004, quando se aposentou. A partir de então dedica-se a ler e escrever, tendo editado Os Lenzi de Samone, em 2005. Hoje, vive em São Paulo.