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"Europa riconosciuta" abre a nova fase do La Scala

Em dezembro de 2001, as notas finais de um “Otelo”, protagonizado pelo tenor espanhol  Plácido Domingo, fecharam as cortinas do velho La Scala, a fim de que sua estrutura, comprometida pelo tempo, passasse por amplas reformas. Após três anos de uma intensa reestruturação, o teatro milanês, considerado um dos coliseus líricos mais importantes do mundo, reabre suas portas, nesta terça-feira, para dar início a mais uma etapa de sua longa trajetória.

Como marco dessa nova fase, o diretor artístico Riccardo Muti, escolheu “Europa riconosciuta” (Europa reconhecida”), de Antonio Salieri, para ser apresentada amanhã.  Ele optou por essa obra, porque foi com ela que se inaugurou La Scala, no dia 3 de agosto de 1778 e, desde então, jamais havia sido apresentada nos palcos milaneses. A eleição da obra também é uma tentativa de recuperar o compositor Antonio Salieri, derrotado historicamente pela rivalidade com Wolfang Amadeus Mozart. Este, apesar de ser alguns anos mais jovem que Salieri, dominou a ópera nos últimos 25 anos do século XVIII. Mutti dirigirá a orquestra, enquanto que Luca Ronconi será o diretor da ópera, a ser interpretada pela soprano alemã Diana Damrau no papel principal de “Europa”.

A reabertura do teatro se converteu num dos mais importantes acontecimentos, não só em Milão, como em toda a Itália e a procura por ingressos não tem precedentes. As entradas estão sendo vendidas por cambistas a 1.500 euros, cinco vezes o preço original. Assim como há aqueles que conseguiram seu lugar por serem personalidades, há também outros que recusaram o convite, como é o caso do Prêmio Nobel de Literatura, Dario Fo.

Os afortunados que irão assistir ao espetáculo poderão conferir ainda como ficou o velho La Scala remodelado. O teatro de estilo neoclássico - construído entre 1776 e 1778 - passou por importantes reformas que custaram 55 milhões de euros, o equivalente a 73 milhões de dólares. A parte externa do edifício não sofreu grandes alterações, já o seu interior ganhou um novo parquê para melhorar a acústica, uma moderna estrutura de cenário e a limpeza dos estuques e de todos os elementos decorativos do recinto.

No decorrer de sua história, o teatro fechou duas vezes. A primeira, em 1943, devido à Segunda Guerra Mundial e a segunda três anos atrás. A pausa desses últimos anos foi vivida de maneira especial pelos milaneses, os quais não renunciaram à opera, já que a programação se transferiu para o moderno Teatro degli Arcimboldi, localizado na periferia da cidade.

Para que tudo dê certo, o arcebispo de Milão, o cardeal Dionigi Tettamanzi, foi chamado a abençoar o teatro. A benção aconteceu neste domingo, antes do ensaio geral de “Europa riconosciuta". Do ato participaram aproximadamente duas mil pessoas, entre trabalhadores do La Scala, operários que participaram de sua reforma e alguns jornalistas. Todos eles num respeitoso silêncio, nada comparado à primeira vez, em 3 de agosto de 1778,   quando muitas pessoas protestaram contra a falta de poltronas para sentar ou se queixaram quando foram atingidos por ossos de frango que comiam os aristocratas nos camarotes.