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Estado e Igreja no Brasil: Uma história (também) italiana

Um livro sobre as relações entre o Brasil e a Santa Sé aborda a influência italiana na religião.

Por Fabio Porta

O Brasil, um país de extensão continental que detém inúmeros recordes devido ao seu tamanho e rica biodiversidade, também ostenta dois recordes mundiais diretamente relacionados à presença histórica italiana nessas latitudes: abriga a maior comunidade de descendentes de italianos e também a maior comunidade de católicos.

Este ano, a publicação do livro do historiador brasileiro Jair Santos, "Igreja e Estado no Brasil: Religião, Política e Sociedade na República (1889-1945)", oferece-nos a oportunidade de refletir sobre essa interessante relação. Esta obra possui grande mérito acadêmico e considerável interesse histórico, cultural e político.

O Brasil tornou-se uma República após uma longa experiência de monarquia católica, marcada por uma relação muito estreita entre o poder temporal e o espiritual. A proclamação da República em 1889 e a subsequente separação consagrada na Constituição de 1891 não resultaram, segundo o autor, na eliminação da função pública do catolicismo, mas sim em sua reorganização, numa redefinição de sua presença na sociedade e na política. A nova fase republicana abriu caminho para o que, parafraseando Gilberto Freyre, pode ser interpretado como um verdadeiro renascimento católico. Em outras palavras, o fim da união orgânica entre trono e altar não levou à marginalização da Igreja, mas sim criou espaço para um novo entendimento entre o mundo católico e a ordem republicana.

Essa é uma transição histórica muito interessante, mesmo para aqueles que hoje questionam o significado de laicidade. Este livro nos lembra que laicidade não significa necessariamente indiferença ao papel público das culturas religiosas e que a relação entre Estado e religião pode assumir diferentes formas ao longo do tempo, para além de estruturas ideológicas excessivamente rígidas.

Mas este ensaio não trata apenas de instituições, diplomacia ou relações entre elites. O livro descreve uma sociedade em transformação, movimentos migratórios e, sobretudo, a chegada de milhares de europeus, especialmente italianos. Não é por acaso que um dos capítulos é dedicado à questão da migração, à missão de Scalabrini no Brasil e ao papel do clero secular italiano.

Trata-se de uma lembrança de uma história compartilhada, um longo período em que a emigração italiana contribuiu não só para o desenvolvimento econômico e social do Brasil, mas também para a construção de redes culturais, religiosas e civis que deixaram uma marca profunda. Sob essa perspectiva, o livro de Jair Santos revela com eficácia a complexidade da relação entre migração, identidade, pertencimento nacional e organização eclesial.

A perspectiva a partir da qual essa história é contada também é muito interessante. O autor observa o Brasil não apenas de dentro, mas também do ponto de vista da Santa Sé, acompanhando as ações da diplomacia papal, dos núncios, da Cúria Romana e das redes eclesiásticas que ligavam Roma ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Essa abordagem enriquece particularmente o volume, pois nos permite ver o Brasil como parte de uma narrativa internacional mais ampla, inserido nos principais movimentos do catolicismo entre os séculos XIX e XX.

A relação entre religião e política jamais deve ser interpretada mecanicamente, nem de maneira puramente apologética, muito menos conflituosa. Essas relações se transformam, se adaptam e se refinam à luz das transformações históricas. E é justamente essa capacidade de transmitir a história em sua concretude, sem forçá-la a fórmulas ideológicas, que torna este livro particularmente valioso; uma contribuição para a história das relações entre o Brasil e a Santa Sé, mas também um convite a uma reflexão mais madura sobre os processos de formação do Estado moderno, sobre o pluralismo, sobre a função pública das tradições religiosas e sobre o papel que a memória histórica pode desempenhar na vida democrática.

Fabio Porta é deputado italiano do Partido Democrático, eleito na América do Sul; é Vice-presidente da Comissão Permanente sobre os Italianos no Mundo da Câmara dos Deputados da Itália.

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Stato e Chiesa in Brasile, una storia (anche) italiana

Un libro sui rapporti Brasile-Santa Sede ci parla dell’influenza italiana anche nella religione.

Di Fabio Porta 

Il Brasile, Paese-continente detentore di numerosi primati dovuti alle sue dimensioni e alla sua ricchissima bio-diversità, può anche vantare due “record mondiali” che riguardano da vicino proprio la storica presenza italiana a queste latitudini: stiamo infatti parlando della nazione dove vive la più grande collettività di italo-discendenti ma anche della più numerosa comunità di persone di religione cattolica. 

L’occasione per riflettere su questo interessante binomio ci viene offerta quest’anno dalla pubblicazione del libro dello storico brasiliano radicato in Italia Jair Santos dal titolo “Chiesa e Stato in Brasile. Religione, politica e società nella Repubblica (1889-1945)”, un lavoro di grande serietà scientifica e di notevole interesse storico, culturale e politico. 

Il Brasile arriva alla Repubblica dopo una lunga esperienza di monarchia cattolica, segnata da una relazione molto stretta tra potere temporale e potere spirituale. La proclamazione della Repubblica nel 1889 e la successiva separazione sancita dalla Costituzione del 1891 non danno luogo, secondo l’autore, a una cancellazione della funzione pubblica del cattolicesimo, ma piuttosto a una sua riorganizzazione, a una ridefinizione della sua presenza nella società e nella politica; la nuova fase repubblicana apre le condizioni per quello che, riprendendo una formula di Gilberto Freyre, può essere letto come un vero e proprio rinascimento cattolico. In altre parole, la fine dell’unione organica tra trono e altare non produce la marginalizzazione della Chiesa, ma crea lo spazio per una nuova intesa tra mondo cattolico e ordine repubblicano. 

È un passaggio storico molto interessante anche per chi oggi si interroga sul significato della laicità. Questo libro ci ricorda infatti che la laicità non coincide necessariamente con l’indifferenza verso il ruolo pubblico delle culture religiose, e che il rapporto tra Stato e religione può assumere nel tempo forme diverse, non riducibili a schemi ideologici troppo rigidi. 

Ma questo saggio non parla soltanto di istituzioni, di diplomazia o di rapporti tra élite. Ci descrive la società che cambia, i movimenti migratori, e soprattutto l’arrivo di migliaia di europei e, in modo particolare, degli italiani. Non a caso uno dei capitoli è dedicato alla questione migratoria, alla missione di Scalabrini in Brasile e al ruolo del clero secolare italiano. 

È un richiamo a una storia comune, a una lunga stagione in cui l’emigrazione italiana ha contribuito non soltanto allo sviluppo economico e sociale del Brasile, ma anche alla costruzione di reti culturali, religiose e civili che hanno lasciato un segno profondo. In questa prospettiva, il libro di Jair Santos restituisce con grande efficacia la complessità del nesso tra migrazione, identità, appartenenza nazionale e organizzazione ecclesiale. 

Molto interessante è anche la prospettiva da cui questa storia viene raccontata. L’autore guarda al Brasile non solo dall’interno, ma anche dall’osservatorio della Santa Sede, seguendo l’azione della diplomazia pontificia, dei nunzi, della curia romana e delle reti ecclesiastiche che legano Roma a Rio de Janeiro e a San Paolo. Questo approccio rende il volume particolarmente ricco, perché ci fa vedere il Brasile come parte di una vicenda internazionale più ampia, inserita nei grandi movimenti del cattolicesimo tra Ottocento e Novecento. 

I rapporti tra religione e politica non vanno mai letti in modo meccanico, né in chiave puramente apologetica, tantomeno conflittuale. Sono rapporti che cambiano, si adattano, si ridefiniscono alla luce delle trasformazioni storiche. Ed è proprio questa capacità di restituire la storia nella sua concretezza, senza forzarla dentro formule ideologiche, che rende questo saggio particolarmente apprezzabile; un contributo alla storia dei rapporti Brasile-Santa Sede ma anche un invito a riflettere in modo più maturo sui processi di formazione dello Stato moderno, sul pluralismo, sulla funzione pubblica delle tradizioni religiose e sul ruolo che la memoria storica può avere nella vita democratica.

Fabio Porta è deputato italiano del Partito Democratico, eletto in Sud America; è Vice Presidente del Comitato Permanete sugli Italiani nel Mondo della Camera dei Deputati

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