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20 de maio, dia da etnia italiana no RS: data transcorre quase desapercebida

O estado onde habitam cerca de 3 milhões de descendentes de italianos comemora, em 2008, de maneira tímida os 133 anos da chegada dos imigrantes italianos. Com algumas exceções, entre elas Caxias do Sul (veja matéria publicada nesta segunda-feira, 19), cuja programação se estende até o final do mês, a data do 20 de maio, instituída por meio de lei estadual em 2001, passará sem oferecer muitas atrações aos ítalo-descendentes. A começar pela capital, Porto Alegre, onde nenhum evento foi anunciado – diferente de anos anteriores.

É praxe valorizar mais as chamadas datas redondas (130, 140), mas de qualquer maneira chama a atenção o descaso das autoridades e instituições. Seria redundante destacar a importância cultural e econômica da imigração italiana para o Estado, onde atualmente vivem mais de três milhões de descendentes de italianos.

E uma data como o dia da etnia italiana tem o seu sentido exatamente na medida em que consagra um processo histórico, ativando elementos culturais para manter a memória popular. Trata-se, em última análise, de algo que diz respeito essencialmente à formação e à educação de um povo.

De qualquer forma, em se tratando do Rio Grande do Sul, esse "esquecimento" não chega a surpreender de todo. Afinal, para além do ufanismo regionalista que impregna as (in)consciências, o fato é que o Estado, a partir de suas autoridades, ficou para trás também quando se trata de aproveitar os laços que o unem com a Itália.

A começar pelo aspecto econômico. Apesar da origem italiana dos últimos dois governadores - Germano Rigotto e Yeda Rorato Crusius - o Estado não promove - e pelo visto não se interessa - em aprofundar as relações comerciais e empresariais com a Itália, bem como as trocas e a cooperação no âmbito da tecnologia e de outros setores.

Enquanto governadore de outras regiões - como Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de Janeiro - vão à Itália, recebem italianos, fecham acordos e entendimentos, o Rio Grande do Sul vive em seu marasmo contemplativo.

Sob o ponto de vista cultural, apenas eventualmente o Estado é incluído em roteiros de apresentações italianas, seja em que âmbito for, do musical às artes plásticas. Nesse sentido, nem mesmo a existência de um consulado sediado na capital ajuda a aproximar pelas artes a Itália de hoje não apenas dos descendentes, mas de toda a população.

Menos mal que ainda existem lugares como Caxias do Sul, que reconhecem a importância de uma data como a de hoje. De Porto Alegre, aliás, pouco se poderia esperar mesmo. Afinal, quem não recuperou o monumento à Garibaldi e Anita, que passou o ano do bicentenário do herói depredado e sujo como sempre, não teria tempo para pensar em algo como o Dia da Etnia Italiana. Que, mesmo encarada apenas sob o ponto de vista pragmático, já seria uma grande atração. 

O início da imigração

A chegada de italianos no Rio Grande do Sul começou a ser planejada pelo governo da província no início da década de 1870 com a criação das colônias Conde d’Eu (Bento Gonçalves) e Dona Isabel (Garibaldi), e a demarcação de lotes coloniais e a assinatura de contrato com firmas encarregadas de trazer os imigrantes. Entretanto, dada a ineficácia do contrato, em 1875, o governo imperial retomou as colônias e passou a promover a imigração. Nesse mesmo ano, o Império fundou uma nova colônia, denominada “Fundos de Nova Palmira”, que dois anos depois, passou a chamar-se Colônia Caxias. Em maio de 1875, chegaram os primeiros imigrantes que foram, inicialmente, instalados em um barracão na localidade de Nova Milano, atual município de Farroupilha e, progressivamente, foram alocados nos lotes coloniais já criados. 

A maior parte dos imigrantes dessa região procediam do Norte da Itália - Vêneto, Lombardia, Trieste. Alguns entraram no Brasil com nacionalidade austríaca, apesar de serem etnicamente italianos. Esses homens saíram de sua terra natal devido às profundas modificações na estrutura agrária e instabilidade causadas pela unificação da Itália e pelo processo de industrialização que expulsavam o agricultor e o artesão das suas aldeias. Entre 1831 e 1930, dez milhões de italianos migraram para a América com a esperança de conseguir terras e uma vida melhor.

Para o Brasil, deu-se preferência à vinda de famílias de casais jovens com dois a três filhos. No Rio Grande, os lotes destinados aos italianos variavam de preço e de tamanho, entre 16 a 30 hectares, de acordo com as condições do terreno, entretanto, nem todos tinham boas condições para a agricultura. O trabalho inicial foi árduo, havendo a necessidade da derrubada da mata para a construção da casa e para a abertura de campo para o plantio. Não trazendo técnicas aprimoradas, utilizaram os sistemas de roçado e de queimada, como os demais agricultores da região. Técnicas que, no longo prazo, trouxeram o desgaste do solo e a redução da produtividade.

As colônias

Cada colônia era dividida em léguas e estas, em linhas ou travessões de cerca de 13 quilômetros, nos quais se alinhavam os lotes. No centro da colônia havia um espaço destinado ao núcleo urbano, onde era construída a igreja e a sede administrativa. Neste centro, estabeleceram-se aqueles imigrantes que eram artífices, contribuindo para a auto-suficiência da colônia. Ao contrário do que ocorreu na imigração alemã, em pouco tempo, as colônias foram emancipadas, passando a fazer parte dos municípios já existentes. Ocupadas as três primeiras colônias da região – Conde d’Eu, Dona Isabel e Caxias -, atravessou-se o Rio das Antas, fundando-se a Colônia de Alfredo Chaves (Veranópolis) em 1884. No ano seguinte, foram fundadas São Marcos e Antônio Prado.

Nas colônias, desde o início, a ação dos comerciantes estabelecidos no vale do Rio Caí viabilizou a comercialização da produção colonial. Esses faziam o papel de intermediários entre os produtores e Porto Alegre. Nas pequenas propriedades, usando mão-de-obra familiar, produzia-se alimentos, criava-se pequenos animais e plantavam-se parreiras. A produção de milho, trigo, vinho, porcos, banha, ovos, queijos, madeira era transportada em carretas puxadas por mulas até os portos de Caí e Montenegro, onde eram embarcadas para a Capital.

Nos primeiros anos o artesanato supria as necessidades da colônia mas, na progressivamente, com a inserção da colônia na economia de mercado, os produtos trazidos pelos comerciantes passaram a substituir os produtos artesanais.

As casas de comércio nas colônias desempenhavam diferentes funções, como a de abastecimento, transporte, banco, beneficiadora de produtos locais (moagem de cereais, abate de animais e preparo do vinho). A maior parte das transações comerciais eram realizadas sem dinheiro vivo. O comerciante mantinha um livro de registro de crédito (produção entregue pelo colono) e débito (compras e mais despesas feitas pelo colono). O colono também confiava suas economias ao comerciante que se encarregava de fazer pagamentos e guardar o dinheiro.

A medida em que os comerciantes foram enriquecendo, investiram parte de seus lucros em alguns ramos da indústria, especialmente na produção de vinho, na exploração da madeira, na moagem de cereais e no beneficiamento de produtos de origem animal. Nesse processo, Caxias tornou-se rapidamente o pólo comercial da zona colonial italiana.

A religião

A religião foi um fator de aglutinação da sociedade colonial. Em cada linha da colônia foi construída uma capela dedicada ao santo de devoção dos colonos, em geral o mesmo da Itália. Essa capela não era apenas o local de culto, mas também o centro social da linha. Ao seu lado, funcionava a escola e um salão onde eram realizadas as festas e os encontros da comunidade.

Na ausência de padres para as capelas, surgiram os padres leigos, homens da comunidade escolhidos pela sua idoneidade moral. Entre suas funções estavam a direção do culto, a explicação do catecismo, a reza do terço dominical, a celebração do batismo. Fazia as orações da missa, mas não ministrava a eucaristia. Com a chegada do padre ordenado, esse indivíduo passou a exercer as funções de sacristão.

A expressão de religiosidade dos colonos era vivenciada através de manifestações exteriores como o uso de velas e fogos, cerimônias litúrgicas como as rezas, procissões, cantos, veneração de imagens e reza diária do rosário. Daí a importância dos santos e suas imagens, muitas vezes dadas como milagrosas. Poucas imagens foram trazidas da Europa, a maior parte foi esculpida em madeira por artesãos locais, normalmente, um agricultor sem grandes conhecimentos artísticos. Essas estátuas eram em geral muito semelhantes entre si. O corpo era feito de uma armação de madeira e arame recoberto por vestes de tecido. Eram essas vestes e seus adornos que identificavam o santo.

As festas dos padroeiros mobilizavam a comunidade. Em Caxias do Sul, Santa Tereza; em Nova Prata, São Pedro; em Farroupilha, Nossa Senhora do Caravágio. Também eram comemoradas as datas litúrgicas como o Natal, a Páscoa, Corpus Christi, nas quais as procissões eram solenes, com imagens, símbolos e sinais.

A partir do final do século XIX, começam a chegar às colônias as ordens religiosas, entre elas, os Capuchinhos, os Carlistas, as Irmãs de Santa Catarina, as Irmãs de São José de Montiers, os Maristas e os Salesianos. Sua missão era prestar assistência religiosa aos colonos, servindo como ponto de partida para a renovação religiosa. Nesse movimento, foram criadas escolas religiosas, jornais católicos e seminários. 

Habitação

As casas dos colonos, inicialmente, eram cabanas provisórias, de pau-a-pique, cobertas com capim. Com o decorrer dos anos, foram substituídas por construções melhores e funcionais.

A construção da residência ficava a cargo de um prático a quem cabia a direção da obra. As técnicas vindas da Itália foram adaptadas à realidade local, utilizando-se a pedra, madeira e tijolo.

As casas nos núcleos urbanos se assemelhavam à moradia rural: o primeiro pavimento era reservado à zona de serviços como cozinha, depósito de vinho e comestíveis. Esse “porão” construído em pedra basalto proporcionava o ambiente de convívio diário da família durante o cozimento dos alimentos e as refeições. O calor produzido nas lidas do porão aquecia o segundo pavimento de assoalho em madeira e era bem vindo nas noites frias da serra. Sobre essa base, a construção era usualmente em madeira, com um ou dois níveis. A cobertura era também de madeira, com tabuinhas chamadas scândole. O sótão servia de dormitório para os filhos mais velhos e de local para secagem dos grãos.

Nos primeiros anos, os móveis eram feitos à mão e polidos com navalhas. Usavam mesas largas e rústicas, bancos de madeira que, com o tempo, foram substituídas por cadeiras revestidas de palha.

Nas casas da cidade, acrescentando-se beirais com lanternins recortados, pequenos alpendres a partir do segundo piso e detalhes de acabamento um pouco mais sofisticados. Na grande maioria das vezes, o pequeno comércio instalava-se na base da casa, permanecendo a área superior para moradia.

As igrejas eram outro tipo de construção característica da região de imigração italiana, normalmente inspirada nos modelos europeus. Estas, em comparação às moradias, demonstraram principalmente a monumentalidade, tendo visto a importância do seu papel junto ao seu entorno. Além da igreja dominante com sua alta torre, era possível observar as capelas hexagonais junto às estradas, atendendo aos viajantes e aos habitantes das vilas.

Mútuo socorro

As associações surgiram com o instrumento de solidariedade para vencer as dificuldades da vida na nova terra, cultivar tradições e consolidar os laços da comunidade.

As associações de ajuda mútua visavam socorrer os recém-chegados, tornando mais fácil a integração nas colônias já estabelecidas, superando as dificuldades dos primeiros meses, até que as lavouras pudessem sustentar a família.

A mais antiga foi fundada em 1871, em Bagé, a Società italiana di Soccorso Mutuo e Beneficenza, com os objetivos definidos em estatuto: socorrer os sócios nas doenças, propagar o conhecimento da língua italiana, estreitar os vínculos de fraternidade entre os italianos domiciliados no município. Estes objetivos passaram a ser copiados pelas demais associações de mútuo socorro fundadas no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre foi criada, em 1877, a Sociedade de Mútuo Socorro Vittorio Emanuelle II, cujo presidente honorário era Giuseppe Garibaldi. Em 1873, foi fundada em Pelotas a Società Italiana Unione e Filantropia. Em Caxias do Sul, surgiu a Príncipe di Piemonte, em Garibaldi Società Italiana de Mutuo Soccorso Stella d’Italia, e em Bento Gonçalves, Regina Margherita. Em Antônio Prado, a Società Italiana Croce Rossa encarregava-se do trabalho da lavoura e da assistência do sócio doente, e no caso de morte desse, assistia e cultivava as terras até a maioridade dos filhos.

Além dessas, outros tipos de associações surgiram em diversas áreas como cooperativas de produção, associações de profissionais de classe, clubes recreativos, irmandades religiosas, associações mantenedoras de escolas entre outras. (Fonte: Liana Bach Martins e Marcia Eckert Miranda/historiógrafas MJC)