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Renata Bueno revela a rotina na Itália em tempos de coronavírus

O governo italiano, em resposta à epidemia de COVID-19, determinou uma quarentena a todo o país. Desde então, conforme foi estabelecido por decreto do primeiro-ministro Giuseppe Conte, firmado em 9 de março passado, o movimento da população tornou-se restrito a “motivos comprovados de saúde ou de trabalho”. A ampliação das medidas, que até então estavam limitadas ao norte, nas chamadas “zonas vermelhas”, mudou a rotina de 60,4 milhões de italianos que, rapidamente, precisaram se adaptar à nova realidade.    

Renata Bueno, ítalo-brasileira, advogada especialista em direito internacional, empresária e ex-deputada no Parlamento italiano pela circunscrição América do Sul vive, na Itália, a experiência do isolamento social. Residente com o marido na região da Puglia, ela nos conta detalhes sobre como está sendo a sua rotina e a sua visão sobre as principais questões políticas do momento, na Itália e no Brasil.

 Acompanhe, a seguir, a entrevista realizada com Renata Bueno, direto da Itália.

Em qual parte do país a senhora está e qual é a situação, nesta região?

Neste momento, nos encontramos na Puglia, onde estamos construindo a nossa casa e reside a família do meu marido. Na semana de 21 de fevereiro, quando estourou a crise sanitária na Itália, eu encontrava-me no Brasil, com a intenção de permanecer apenas por alguns dias, em vista de uma reunião de trabalho. Eu acabei voltando porque o meu marido estava aqui. Daí, iniciamos um isolamento voluntário, até que, na segunda semana de março, o presidente Conte decretou o isolamento obrigatório a todo o país. 

Nos dez primeiros dias, nós permanecemos em Roma, onde eu passo, normalmente, a trabalho, durante a semana. Aguardamos para ver se estava tudo bem, antes do retorno à Puglia. Então, ficamos totalmente isolados, saindo somente para ir ao supermercado. O cenário era bem difícil, no centro de Roma, havia um policiamento muito forte porque algumas as pessoas, ainda, queriam passear ou fazer atividades físicas. As ruas, as praças e os monumentos ficaram todos vazios. 

Depois disso, descemos para a Puglia e aqui está tudo mais tranquilo, porque no sul a situação está mais contida. 

Como foi a sua decisão de permanecer na Itália?

Na primeira semana, quando se tornou obrigatório o autoisolamento, eu propus ao meu marido irmos para o Brasil, onde temos a nossa empresa, mas ele não quis por causa da família. E para nós viajarmos, ao chegarmos aí, teríamos que fazer também a quarentena, e houve a preocupação de levarmos algum vírus conosco para o país. Então, nós optamos por permanecer aqui e, com responsabilidade, seguirmos a orientação das autoridades sanitárias. 

Quantos dias vivendo a experiência de isolamento social? 

Já estamos há um mês, praticamente. Porém, continuo trabalhando bastante de casa. Como advogada, mantenho a minha atividade de consultoria internacional e tenho atuado nesta situação de emergência. Aqui na Itália, assim como na Europa, faltam dispositivos de proteção individual. Este foi o grande problema, desde o início da emergência. 

Renata Bueno com o marido, o empresário italiano Angelo Martiriggiano

Inclusive, muitos profissionais do setor foram contagiados, mais de 50 médicos já morreram por causa do vírus. Junto com o escritório, com o meu grupo aqui, tentamos colaborar de todas as formas para que esse material consiga atravessar as fronteiras que estão todas fechadas. 

Qual o seu sentimento, em relação ao isolamento?

O sentimento, no início, foi de não conseguir ficar parada, isolada, sem sair de casa. No começo, pensávamos que iria acabar rápido, em duas semanas. Porém, logo em seguida, nem uma semana depois, veio a declaração do primeiro ministro sobre o bloqueio total.

Na verdade, existem dois extremos. O lado positivo é o recolhimento, é voltar para casa, ter a sensação de retornar para as nossas bases. Vivemos sempre com tanta pressa, sem tempo para a casa e a família. Eu e meu marido estamos bem, estamos felizes, trabalhando um pouco de casa, mas sem aquela ansiedade do dia-a-dia te engolindo.

Por outro lado, o sentimento também é de preocupação, por não saber o que irá acontecer com o mundo, com a economia, quando a pandemia for superada. Nós temos certeza de que tudo irá passar, mas qual será o resultado disso, ainda ninguém sabe. Neste sentido, a minha preocupação também é com o Brasil, um país onde existem muitas diferenças de classes sociais, onde uma crise como esta afeta muito mais. De qualquer forma, nós temos que buscar tirar o melhor proveito disso tudo e uma reflexão interna, neste momento, é importante.   
 
O que mudou na sua rotina? Conte-nos um pouco sobre o seu dia-a-dia.

Permanecemos, eu e meu marido, em casa. Nos primeiros dias, ainda em Roma, saíamos, eventualmente, para fazer compras. Atividade física, somente era possível fazer no terraço do prédio. Ali eu praticava a minha ioga, alguns exercícios e pegava um pouco de sol. Foram dez dias que se passaram assim, cuidando da casa, fazendo limpeza, fazendo faxina, organizando livros, documentos, tarefas que estavam pendentes, por alguns bons anos.

Os exercícios diários fazem parte da rotina de Renata Bueno, em sua casa na Puglia, na Itália

Agora, aqui na Puglia, lidamos bastante no jardim e, como estamos terminando a construção da nossa casa, nos dedicamos muito a este trabalho, também. Além de cozinhar, viver a vida de um modo que, habitualmente, o tempo não nos permite. 

Como o povo italiano reagiu à quarentena imposta pelo governo?

A resposta do povo foi imediata. Algumas cidadezinhas, onde ocorreram os focos iniciais do coronavírus, perto de Milão, foram fechadas imediatamente, logo que estourou a crise. Então, os italianos já tinham acompanhado a situação da quarentena, na zona vermelha. Quando isso foi estendido para toda a Itália, as pessoas acataram imediatamente.

Qual é a sua opinião, em relação à condução da crise pelo governo italiano?

O governo italiano, na verdade, tomou algumas decisões certas, pois não tinha muita alternativa, num momento de emergência tão grave. E o que a Itália fez foi seguir o exemplo da China, o que foi bom porque lá foi feita a quarentena, durante cerca de 100 dias, e hoje eles já começam a retomar a vida normal. 

Acredito que, talvez, se fôssemos mais organizados, teríamos melhores resultados. A começar pelo próprio governo que, a cada dia, baixa um tipo de certificação para as pessoas poderem sair de casa. Em vista disso, algumas pessoas acabam confusas, sem saber o que fazer. 

Além disso, faltou capacidade na condução do contexto geral da crise, especialmente no que diz respeito às fronteiras, na entrada do material necessário, a fim de que se tivesse uma estrutura mínima para a proteção e o salvamento das pessoas. 

Existem críticas à União Europeia, a senhora concorda?  

Eu sempre fui uma fã da União Europeia, inclusive foi o tema da minha tese de mestrado, a jurisdição supranacional, onde eu abordei toda a sua base de criação e fundação, mas nesse momento me decepcionou muito. Na verdade, a União Europeia desapareceu, quando mais precisávamos da união entre os países. 

Já no início da crise, não era permitida a vinda das máscaras de proteção para a população, nem de equipamentos de ventilação pulmonar para os hospitais, porque cada um queria preservar a sua reserva, dentro do seu próprio país. Então, nós vimos que realmente faltou solidariedade, muita mesmo. E agora, está mais do que certo, fecharam as fronteiras, enfim, foi uma grande decepção. 

A gatinha Matilda aproveita o carinho dos donos, agora mais presentes em casa

É claro que temos o banco central europeu, com o apoio financeiro, e isso conta bastante nessas horas, porque se a Itália tivesse que arcar com tudo sozinha, economicamente falando, ela sofreria muito mais, na verdade não teria como. 

E quanto ao futuro da Itália? O que será necessário para superar uma possível crise econômica? 

Quanto ao futuro da Itália existe uma preocupação muito grande. Infelizmente, o Parlamento está tendo uma participação pequena, quase zero, neste momento de crise, onde o governo está tomando as decisões, praticamente, sozinho. Tudo está sendo feito via decreto e o Parlamento, ao invés de estar atuando para proteger o país, está com todo mundo em casa. Eu concordo com quem diz que, se os médicos estão na linha de frente, os que precisam proteger a Pátria italiana, no caso os parlamentares, deveriam estar também. Dentro, obviamente, da condição cabível de proteção para cada um. 

Preocupa como será o futuro porque a Itália está perdendo muita gordura financeira, muitos empregos. Certamente, o país terá que enfrentar uma grave crise econômica que poderá se prolongar por algum tempo, se não por não anos. 

Por outro lado, a Itália está tendo que se adaptar em muitas coisas, principalmente na tecnologia, na redução da burocracia. Talvez, isso repercuta, mais à frente, num novo impulso para o país. Acredito que eliminar a burocracia seja uma necessidade primordial na Itália. Assim como a criação de serviços online, uma coisa que não existe. Até um pedido numa farmácia de manipulação, o que no Brasil você faz pelo WhatsApp, aqui não é possível, nem por telefone, sendo necessário você ir pessoalmente ou, na melhor das hipóteses, passar um fax. A Itália precisa dar um passo de gigante, em direção à modernidade, à tecnologia, à praticidade.

Uma questão interessante que está ocorrendo é relativa ao meio ambiente, onde vemos uma resposta muito positiva. Em Milão, uma das cidades mais poluídas da Europa, já existem reflexos na melhoria do ar, assim como ocorreu na China. Também em Veneza, houve ganhos para a natureza. Os canais com as águas mais limpas passaram a contar com a presença de peixes. Em meio a esta crise tão triste, pelo menos este setor está obtendo um resultado favorável. Talvez, isso venha a ser um fato proveitoso, no contexto da recuperação do país.   

O Brasil também decretou medidas de isolamento.  Qual a sua mensagem aos brasileiros, com base na sua experiência na Itália? 

Acho que o Brasil está no caminho certo. É claro que o país não tem condições de ficar tanto tempo parado em isolamento, mas acho que tomou a decisão certa no momento certo, antes que se tornasse uma situação incontrolável. Assim, dando essa freada agora, parando tudo, conseguimos ganhar tempo e mais domínio da situação. Ganhar tempo significa estar pronto para enfrentar uma emergência como essa. 

Claro que é necessário estar sempre muito atento à economia, deixar alguns setores cruciais funcionando para o país poder seguir em frente. Um exemplo muito importante diz respeito a como a Coréia do Sul obteve domínio sobre a situação. O país fez o monitoramento das pessoas contaminadas, o que a Itália está tentando fazer agora, depois de tanto tempo de um isolamento cujo resultado foi médio e não tão bom como o da China. Entendo que este é o modo mais adequado e o Brasil poderia tentar reproduzir essa experiência. 

Graças a Deus, a América do Sul é o continente que está mais protegido, em tudo isso. Talvez seja pelo clima, eles ainda não sabem dizer, mas é um povo abençoado. 

A todos os brasileiros envio o meu abraço, aqui da Itália.  Torço pelo Brasil para que essa situação seja plenamente superada, da melhor forma, o mais rápido possível. É importante que todos tenham cuidados, que cada um cuide também do próximo, sem nunca perder a esperança e a alegria.