UIL

Os italianos no cinema brasileiro

Por  Márcio Galdino    

Pode-se dizer que a interpenetração de nacionalidades é uma característica marcante do cinema. Atores, produtores e diretores, construtores de estúdios e criadores de circuitos de salas exibidoras, cenógrafos, iluminadores, operadores, técnicos, enfim, de todas as especialidades, naturais de diversos países foram os artífices não só do prestígio do cinema norte-americano e inglês. Que seria de Hollywood sem os alemães como Ernest Lubitsch e Curtis Bernardt, austríacos como Joseph Von Sternberg e Erich Von Stroheim, franceses como Jean Renoir e Julien Duvivier; húngaros como William Fox e Adolph Zukor; ingleses como Charles Chaplin e Alfred Hitchcock; italianos como Frank Capra, e poloneses como Samuel Goldwin?

E vamos observar o mesmo em outros cinemas. É o caso do húngaro Alexander Korda, na Inglaterra e do brasileiro Alberto Cavalcanti, que na França, foi uma personalidade decisiva na avant garde e no movimento documentário da GPO Film Unit, na Inglaterra.

O cinema brasileiro não ficou isento de uma grande influência de alemães, argentinos, armênios, espanhóis, estonianos, franceses, ingleses, húngaros, norte-americanos, poloneses, portugueses, russos,  tchecos. Irmanados com os brasileiros nativos eles ajudaram a escrever a História  do Cinema Brasileiro.

Vencendo toda essa plêiade babélica em número estão, contudo, os italianos. Se a primeira exibição cinema no Brasil, ocorrida na Rua do Ouvidor em 1896 foi promovida por um francês chamado  Henri Paillie, as primeiras filmagens foram feitas por Vito Di Maio. Nascido em Nápoles em 14 de abril de 1852, que chegando ao Brasil em 1891 instalou uma sala exibidora com espetáculo de lanterna mágica na rua do Ouvidor n.º 149, que em 1894 vendou a Paschoal Segreto, indo em seguida para a Europa, onde comprou aparelho, provavelmente Animatógrafo de Paul e em 6 de maio de 1897 exibiu no Cassino Fluminense, em Petrópolis, cidade elegante de veraneio carioca, quatro filmes: Ponto Terminal da Linha de Bondes de Botafogo, vendo-se os Passageiros Subir e Descer; Uma Artista Trabalhando no Trapézio do Politeama; Chegada do Trem a Petrópolis e Bailado de Crianças no Colégio, no Andaraí Cf. Verdades Sobre o Início do Cinema no Brasil. Jorge J.V. Capellaro e Paulo Roberto Ferreira. Rio de Janeiro: Funarte, 1996.

Di Maio foi um ambulante infatigável. Entre 1899/1901 promoveu exibições em São Paulo. Em 1905 estava de novo no Rio de Janeiro, promovendo exibições no chope berrante do Passeio Público, para uma platéia onde se encontrava Artur Azevedo. Em 1906 estava no Teatro Maceioense, em Alagoas! No dia 13 de janeiro de 1907 no Éden Parque, em Vitória, Espírito Santo. Ainda nesse mesmo ano chegou a Fortaleza, fixando-se aí então, definitivamente, onde veio morrer em 21 de abril de 1926.

Os Segreto

Os irmãos Segreto Gaetano (1866-1908) e Paschoal (1868-1920) oriundos de San Martino Cilento chegaram ao Brasil em 1883. No Rio de Janeiro trabalharam juntos vendendo bilhetes de loteria e como jornaleiros conseguem organizar um pioneiro sistema de bancas de jornais, que prospera. Nesse tempo a maioria dos jornais editados na cidade tinham suas redações e oficinas na Rua do Ouvidor. Gaetano consegue a distribuição exclusiva do vespertino A Notícia, fundado em 1894 por Manuel Jorge de Oliveira Rocha, o mais simpático, o mais lido e o de maior tiragem. Em 1893 surge na cidade o jogo dos bichos que se alastra como uma epidemia e é logo criminalizado como contravenção penal. Os irmãos Segreto travam então contato com José Roberto da Cunha Sales (1840-1903), conhecidíssimo na Capital da República por suas artimanhas com fórmulas farmacêuticas, a mais célebre das quais a Virgolina, “para fazer voltar a estado de donzela aquelas que já não o eram”. Cunha Sales explorava o jogo dos bichos disfarçadamente no Pantheon Ceroplástico, primo pobre do Museu Grévin de Paris, situado na Rua do Ouvidor, que por sua pouca largura era alcunhada de “beco das novidades”, em cima do Café Java, ponto de venda de bilhetes de jogos. 27 de novembro 1897. Cunha Sales Pedido de patente notação n.º. 8663. Paschoal se associa a Cunha Sales e formam o Salão Novidades Paris no Rio. Paschoal percebendo o futuro brilhante do rendosíssimo negócio das diversões adquire a Vito Di maio, que também se achava instalado na Rua do Ouvidor n.º 49, desde 1891, com uma lanterna magica. Diante do sucesso das exibições promovidas por Henri Paillie, em junho de 1897, das imagens animadas, lançadas com o nome Omniographo, Paschoal não tem mais dúvidas. Paschoal Segreto obteve a patente, que recebeu o n.º 2598, publicada no D.O.U. de 9 de agosto de 1898 p. 4623 col. 3. Paschoal ampliou suas salas na Capital Federal, em Santos, São Paulo e Campos, no norte fluminense. Foi cognominado pela imprensa Ministro das Diversões. Produziu dezenas de filmes, reportagens de assuntos locais.

No ano de 1896, Gaetano se casa com Elia Saccardi, com que teve dez filhos. Nesse mesmo ano, os dois irmãos requerem ao Chefe de Polícia do Distrito Federal que fossem canceladas as notas de entrada de ambos na Casa de Detenção por “algumas pequenas faltas na sua meninice” alegando que “atualmente são homens benquistos na sociedade estimados e considerados” O diretor da Casa de Detenção informou que “o italiano Paschoal Segreto tem nesta casa, 13 entradas, sendo a última delas em 5 de fevereiro de 1888. Gaetano tem 9 entradas, sendo a última delas em 10 de fevereiro daquele ano”. Ainda em 1896 Paschoal manda vir da Itália seu irmão mais novo Alfonso e no ano seguinte envia-o a Paris para aprender operar filmes no Établissements Pathé Frères. Em 1898 Alfonso está de volta com equipamento completo e inicia uma série de dezenas  filmagens que vai durar até 1901.

 Gaetano Segreto vai se envolvendo de forma cada vez mais profunda com a colônia italiana do Distrito Federal, onde Cria o Circolo Operaio Italiano (1890) e funda o jornal Il Bersagliere, do qual se torna diretor. Requereu em 24 de dezembro de 1897 patente de um “aparelho indicador urbano”. Era irmão maçom, deputado da loja maçônica Fratelanza Italiana, no Rio de Janeiro e da Loja Cavour, em São Paulo. Morreu na Itália em 1908.

Alfonso Segreto é de todos os irmãos o que menos se conhece, ignorando-se inclusive a data de sua morte bem como o local. Possivelmente na Itália já que segundo informações prestadas por familiares, depois da morte de Pascoal, em 1920, desentendendo-se com seus sobrinhos, Alfonso se retirou para sua terra natal. No Arquivo Nacional existem dois pedidos seus de patente de invenção: n.º 3.157, datado de 14 de janeiro de 1902 para “Mesa moderna destinada a estabelecimentos comerciais e que servem para anúncios” e n.º 5.333, datado de 26 de novembro de 1908 para “Aparelho de segurança e proteção denominado Protetor Segreto”.

Temos ainda o registro de outro irmão, João, nascido em 8 dezembro de 1882 e que morreu no Rio de Janeiro em 22 de junho de 1931.

Os italianos espalharam-se pelo imenso território brasileiro. No Rio Grande do Sul Francisco Di Paola realizou as primeiras exibições em 4 de novembro de 1896. No norte do José Felippi chegou a São Luís, Maranhão no começo de junho de 1902, vindo de uma temporada  no Teatro Politeama de Belém do Pará. com um aparelho inglês Bioscope.
Em 1904 os irmãos Domenico e Giuseppe Fellipi realizam em Pelotas Vistas da União Gaúcha, Centro de Tradições, e em Porto alegre Vistas do Passeio: O Grêmio Tamandaré pela Bacia do Guaíba e A Retirada do Povo que Assistiu à Festa das Dores, exibindo ainda no Teatro S. Pedro A Defesa da Bandeira Nacional.

Staffa

As principais informações sobre Staffa estão numa matéria publicada na revista Cinearte n.º 90, 16 novembro 1927, à guisa de necrológio, intitulada Quem Foi Staffa.

Giacomo Rosaio Staffa nasceu em Cosenza 3 novembro 1869, numa família de origem albanesa. Aos 12 anos, a 13 de julho de 1883 embarcou com destino ao Rio de Janeiro. Foi vendedor dos jornais O Corsário, um pasquim propriedade de Apulchro de Castro, um negro que optou pelo caminho da canalhice, da escroqueria, da agressão pessoal, da ofensa, como forma de ganhar dinheiro” segundo artigo de Joel Rufino dos Santos (Anais da Biblioteca Nacional, vol. 116, 1996 p. 98/103). Por isso Staffa foi preso junto com 25 a 30 garotos que vendiam o jornal, verdadeira mania no Rio de 81/83. e O Jacobino de Deocleciano Martyr, jornal florianista. Vendeu balas nas barcas de Niterói e bilhetes de loteria. “Até capoeira me fiz. Eu era da roda dos nagôas”. Foi preso vendendo O Corsário. Teve febre amarela aos 15 anos. Aos 22 anos (1891) foi condutor de bonde, na Companhia de Vila Isabel. Trabalhou para a polícia por ocasião da Revolta da Armada (1893). Ganhou dinheiro vendendo jogo dos bichos. Casou-se com a professora Joana Fiscina, mãe de seus sete filhos. Estabeleceu-se na Rua do Ouvidor, com negócio de cartões postais, a partir de 1902. Foi em 1905, em Nápoles que Staffa, já possuindo um pequeno capital assistia um seu conhecido ganhar bastante dinheiro para viver com conforto com uma sala exibidora de filmes.

Decidiu fazer o mesmo no Brasil. Assim, em  10 de agosto de 1907 inaugurou o Cinematógrafo Parisiense, investindo 100 contos de réis. Foi a primeira casa permanente exibidora de cinema do Brasil. Começou exibindo Vida, Paixão e Morte de N. S. Jesus Cristo. No dia da estréia chegou a enjoar de ver tanto dinheiro. Nas instalações de uma antiga loja de flores artificiais haviam dois armazéns que Staffa transformou em sala exibidora, tão grande era o público. O dinheiro ficava em caixas de sapato. As colunas das salas eram ocas e tinham que ser consertadas todos os dias. Da Rua do Ouvidor passou para a Avenida, em 1913 com os filmes da Nordisk e ganhou numa temporada mais de mil contos.

Os filmes da Nordisk tinham seu resumo minucioso publicado em meia página dos jornais como pequenas novelas, primeiramente traduzidas pela sua esposa e posteriormente por Manoel Lavrador. Staffa foi também produtor de alguns filmes de reportagens sobre assuntos locais que exibia em sua sala, sem contudo atingir a magnitude dos Segreto e de outros produtores das outras casas exibidoras. Nessa época da pedra lascada do cinema as empresas usavam esses filmes locais como estratégia para atrair público.

Depois veio a guerra e a companhia dinamarquesa, que era distribuída pelos alemães, foi boicotada. Staffa passa para a produção teatral e hoteleira.

Filmes italianis de temas e personagens do Brasil

Num artigo como esse seria interessante levantar também as produções italianas que focalizam temas e personagens brasileiros. O primeiro que encontrei foi exibido no Pavilhão Internacional, de Paschoal Segreto, em 10 de janeiro de 1908, intitulado Garibaldi, o guerrilheiro do Sul e o herói da unificação da Itália. E dizia o anúncio: “Fita belíssima e de grande interesse apresentando diversos episódios da vida desse herói desde o encontro com Anita Garibaldi. Os combates no Sul, a morte de Anita ferida em combate – até ao encontro na Itália com Vittorio Emanuel depois do combate”. Esse filme não está incluído na filmografia incluída em www.garibaldi200.it

No dia 21 de setembro de 1910, o Cinema Soberano exibiu filme intitulado Anita Garibaldi. “Grandiosa ação histórica em que Giuseppe Garibaldi distinguindo-se em gloriosos feitos d’armas em Santa Catarina, depara-se com a esbelta e simpática Anita Ribeiro. Apaixonando-se por ela, fá-la sua esposa, sua companheira inseparável no campo de batalha. A heroína brasileira tão admirada no velho como no novo mundo. Episódio histórico e guerreira em que tanto se distinguiu a intrépida patriota”. Segundo a acima referida filmografia esse filme é de Mario Caserini e Maria Caserini interpreta a heroína dos dois mundos.

O  gaúcho

O Gaúcho 1914, Anúncio, Cinema Teatro Phenix. Grande drama em 2 partes editado pela afamada fábrica Savoia, de Torino, que “revelam toda a psicologia quente e impetuosa dos habitantes do Rio Grande do Sul”.

O Truque brasileiro

O cômico André Deed (1884-1938) então uma celebridade internacional, que se apresentou no Rio em 1913, realizou o filme Le Stivale del Brasiliano, 1916, exibido no Rio de Janeiro com o título de O Truque do Brasileiro. Cinegrafado pelo célebre Segundo de Chomon o filme contra as peripécias de um indivíduo que “conhecendo pelas leitura dos jornais que um brasileiro elegante e insinuante faz muitas conquistas, imita um “rasta” cheio de jóias e veste-se com ridículo espalhafato, para facilitar suas conquistas”.

Fita apreendida

No dia 27 de junho de 1926, o jornal O Estado de S. Paulo  publica uma matéria intitulada Exploração ignóbil. Um filme deprimente para o Brasil preparado pela companhia Dramática da Atriz Italia Almirante. A longa reportagem relata a apreensão de um rolo de filme com cerca de 150 metros cenas de batuque que foram feitas no Jardim da Aclimação, supostamente passadas numa senzala de uma fazenda de um nababo português. “Em certo ponto, um artista não se contem e, por pilhéria, arrebata uma pretinha e sai com ela, dançando. Os dançadores se alvoroçam e o chefe do batuque separa o par, com ar feroz. Mas isso não o satisfaz e para vingar-se vai ao grupo de artistas, tira uma atriz e sai com ela, a dançar. Embalde os colegas tentam arrancá-la daqueles braços, da sanha daquela multidão andrajosa, suada, de catadura hedionda. Estabelece-se a luta. E, aos gritos de toda a gente, aparece o fazendeiro, de botas, chapéu largo de cowboy, um tipo anacrônico, que arrebata a moça das mãos do preto, atira por terra o agressor e corta-o de rebenque, surdo às imprecações feitas de joelho. Enquanto o companheiro apanha os pretos fazem esgares de pavor”. 

Filmes cantantes

Como na França, também no Brasil houve, a partir de 1908, uma grande produção de filmes cantantes. Os intérpretes eram filmados cantando árias de óperas (Vissi d’arte virou epidemia), operetas, zarzuelas e canções populares, principalmente italianas como Ciribiribin, Torna a Surriento, em dialeto napolitano, para atrair a platéia de imigrantes que não era pequena.
Coube a outro italiano, Francisco Marzullo interpretar um dos primeiros filmes posados feitos no Brasil, Os Estranguladores do Rio, 1908, inspirado num episódio da crônica policial.

No Rio Grande do Sul, Nicola Petrelli filmou em 1908 a Primeira Partida de Futebol entre o S. C. Pelotas e o S. C. Rio Grande. No mesmo ano, Jacinto Ferrari filmou O Carnaval de 1908, Porto Alegre, projetado no Teatro S. Pedro.

No ano de 1911 Guido Panello, em Pelotas, filmou  Festa na União Gaúcha, produzido por João Simões Lopes e também Chegada e Movimento do Primeiro Visconde de Pelotas. E ainda, em Porto Alegre, A Tragédia da Rua dos Andradas. Ainda em Pelotas, os irmãos Grecco realizam Clube dos Atiradores, lançado em fevereiro de 1913.

Muitos do imigrantes italianos se instalaram como fotógrafos, retratistas. Um desses L. Musso, proprietário de um ateliê na Rua da Carioca, no Rio de janeiro, famoso por ser o estabelecimento preferido da elite carioca. Dele conserva-se um filme de 1913 com o registro da Viagem ao Brasil de uma missão diplomático-militar da Alemanha, aparecendo, entre outros, o Marechal Hermes da Fonseca, 13.º Presidente da República, com cenas feitas no Corcovado e Pão de Açúcar.

Paulo Benedetti nasceu na  Itália em 1864 e chegou ao Brasil em 1897, onde obteve registro de patentes de aparelhos produtores e combustores de gás acetileno, então usado na iluminação, estabelecendo-se  com dois sócios, abre um comércio instalado na Praça Tiradentes, 73, com a denominação de A Luz Moderna, espalhando anúncios pelos jornais do interior de Minas e da Capital da República. O negócio prosperou mas Benedetti, muito inquieto, dedicava-se a novos inventos. Só sossegou quando uma de suas experiências provocou uma explosão que quase o matou.

Foi então para São Paulo e instalou na Rua Líbero Badaró, o Cinematógrafo Japonês e com ele excursionou pelo interior. Em 1908 vamos encontrá-lo em Barbacena, no interior de Minas. Aí ele se instala no prédio do Teatro da cidade e muda o nome de sua firma para Cinema Mineiro exibindo produções italianas e francesas.

No dia 7 de setembro de 1911 projeta no Cinema Mineiro a reportagem completa da Inauguração da Herma de Correia de Almeida. Em agosto de 1912 projeta Raid de Infantaria da Linha de Tiro e Procissão de N. Sra. da Boa Morte. Todas reportagens.

Cinemetrofonia

Benedetti forjou a palavra Cinemetrofonia para batizar seu invento que recebeu a patente nº. 6961 de 11 de abril de 1912.
Em uma entrevista à revista Cinearte, 1929, ele diz que “a idéia do comentário musical sincronizado me nasceu no cérebro or causa da falta de harmonia que não poucas vezes observei entre a música que a orquestra toca e o filme que corre na tela!... às vezes desenrola-se um drama e a orquestra enche os ouvidos da gente das notas de uma música alegre!”

Realiza então um “filme especialmente organizado” com a ária Alla’idea di quel metallo portentoso, da ópera O Barbeiro de Sevilha, que projeta no dia 19 de maio de 1912.

Em 1913 obtém nova patente do invento e projeta outro filme exemplificativo, no dia 19 de outubro de 1913.

Opera filme

Com as duas patentes da Cinemetrofonia Benedetti mobiliza a comunidade italiana de Barbacena – prova disso são as assinaturas do Estatuto da companhia –e funda a Opera Filme para explorar seu invento. Com tudo organizado e subscrito o capital em ações, realiza o filme Uma Transformista Original, que o volume consagrado ao Cinema da Encyclopédie Bordas, publicada em Paris, na década de 80, alinha entre as mais importantes filmes do mundo produzidos naquele ano de 1915.

Uma transformista original

O filme foi estrelado por Brasília Lazzaro, diplomada pela Escola Dramática, e mais um casal de artistas ambulantes de nome Ferreira. Tinha o filme cinco partes, três das quais sincronizadas com o fonógrafo e a orquestra e as demais só com esta última. Brasília tinha uma voz agradável para os papéis de opereta, e no filme interpretava trechos de óperas e canções italianas, como a romanza M’appari tutt’amor, da Martha, de Flotow. Os discos foram gravados no Rio, na casa Edison, de Frederico Figner.

Não era um filme de curta-metragem. Se considerarmos que cada parte tem cerca de 300 metros, o filme com 5 partes devia durar cerca de 40 minutos, sendo, portanto, um média-metragem. Em 1928 Pedro Lima assistiu ao filme e escreveu em Cinearte: “Filme musicado e sincronizado, com intercalação de visões, truques e todo cantado. Para o tempo em que foi feito, denota um progresso extraordinário, o que justifica o entusiasmo causado no público quando de sua projeção em Barbacena”.
Em 1941 em artigo em O Jornal Pedro Lima escreve ainda: “Uma Transformista Original, tendo como operadora a Rosina Cianello, talvez a primeira mulher no mundo empregada em semelhante trabalho. Este filme que ainda hoje é conservado em fragmentos, bem poderia ser recolhido a um Museu do Cinema, se nós tivéssemos entre tantos museus que possuímos, um, destinado a guardar o que já temos realizado na Arte das imagens”.

Vittorio Capellaro estreou dirigindo um filme publicitário, em 1915, intitulado O Último Efeito Benéfico do Radium. Estava em turnê pelo Brasil com a Companhia Teatral Alberto Capozzi sendo elementos da trupe aproveitados no filme. A palavra radium no caso era mais nada menos que um apelo, com uma conotação científica mas não passando da apresentação de uma marca de sapólio.

Nesse mesmo ano dirige Inocência, dando início à sua longa filmografia com aproveitamento de clássicos da literatura brasileira.

Integrando-se cada vez mais ao Brasil Capellaro realiza ainda em 1916 O Guarany. Tamanho foi o fascínio do cineasta pela história imaginada por José de Alencar que ele irá refilmá-la dez anos depois. Mostra uma faceta pouco conhecida de sua carreira, como documentarista, dirigindo Instituto Butantan onde focaliza o grande serpentário e a utilização do veneno para a preparação do soro antiofídico descoberto pelo Dr. Vital Brazil.

Também em 1916 o ator Franco Magliani, de quem nunca mais se ouviu falar, dirigiu Lucíola, extraído da obra de José de Alencar. Pedro Lima comenta entusiasticamente a criação de Lúcia Maria da Glória, a cortesã que “no abismo da perdição conserva a pureza da alma” interpretada por Aurora Fulgida.

Aurora Fulgida é uma filha de Bucareste, esplendidamente dotada de uma educação artística, no convívio de grandes mestres da gloriosa Itália. O seu espírito formou-se, poderosamente influenciado pela atmosfera dessa península, onde os gênios contam-se às centenas, desde que ali, no Latium,  Rômulo e Remo lançaram as primeiras pedras daquele muro irrisório e que mais tarde, sob os Césares, se tornou um poder dos mais formidáveis de que até hoje temos notícia.

Al principio ho preso il lavoro como scherzo – declara-nos Aurora Fulgida. E assim foi. Só depois de ter apreendido o valor do trabalho, a sua beleza artística e principalmente a responsabilidade que sobre os ombros lhe cairia é que se interessou vivamente pelo feitio de Luciola, dando-nos fielmente a heroina de José de Alencar.

Em 1916, em São Paulo a Paulista filma produz e Guelfo Andaló dirige, João Stamato cinegrafa Dioguinho, sobre as façanhas de um facínora que no final do século XIX aterrorizara o este paulista. Interpretado por Georgina Marchiani que faz o papel de Mariquinhas, a mulher do bandido e Antônio Latari que vive Dioguinho e mais Elvira Latari.

Vittorio Capellaro em 1917 realiza com cinegrafia de seu compatriota Benedetti. O Cruzeiro do Sul, o filme mais obscuro de sua filmografia. Retorna então à Itália numa viagem arriscadíssima devido aos submarinos alemães, e apresenta-se para o serviço militar.

Nos tempos da Primeira Guerra Mundial, vivendo-se o auge da campanha pelo serviço militar obrigatório, Guelfo Andaló, um dos muitos italianos que viviam às voltas como cinema em São Paulo, dirige Pátria Brasileira, contribuição ao que parece não era estranha à Liga da Defesa Nacional. O seu secretário geral, o poeta Olavo Bilac teria mesmo influído na direção da seqüência do juramento à bandeira.

São tempos ainda de intensa propaganda cívica, de intenso nacionalismo e assim é que surge Heróis Brasileiros na Guerra do Paraguay ou A Morte Gloriosa do Tenente Antônio João, ou, ainda, A Retirada da Laguna. Direção de Achilles Lambertini, membro da Família Lambertini (assim mesmo, pois era também uma razão social) que se constituíra não só em conjunto teatral, mas num curioso grupo de produção cinematográfica.

A primeira cinebiografia do Patrono Cívico do Brasil, Tiradentes ou o Mártir da Liberdade, dirigido por Perassi Felice, era anunciada como “colorido por meio de viragens químicas”. A Família Lambertini que trouxera da Itália uma tradição teatral realiza O Grito do Ipiranga, dirigida por Giorgio e contando no elenco com Achilles, Emma, Luíza, Vittoria e o próprio Giorgio, que por vezes saía detrás da câmara.

Mais pomposa foi a denominação do filme de Arturo e Giuseppe Carrari, piemonteses: Grandiosa Manifestação em Regozijo à Vitória dos Aliados.

Terminada a guerra Capellaro retornou ao Brasil entrando em contato com exibidores seus patrícios, como Alberto Sestini e Gustavo Pinfildi, ambos com casas exibidoras no Rio. Como distribuidor ambulante foi que Capellaro viajou para o Nordeste onde encontrou um rapaz que pensava entrar para o negócio da exibição cinematográfica, cujo nome era Luiz Severiano Ribeiro, mais tarde um dos maiores exibidores do Brasil.

Em seguida, Capellaro retomou à sua atividade de produção e direção. Em 1918 realiza Iracema, onde a personagem titulo é encarnada por sua esposa Giorgina, e cujo negativo foi destruído num acidente do laboratório de Alberto Botelho. No ano seguinte realiza de novo Iracema, com outra equipe.

Em Petrópolis, no Estado do Rio de Janeiro, Henrique Pongetti realiza A Estrangeira, 1919, que ele rememora assim em  O Carregador de Lembranças (Memórias). Rio: Editora Pongetti, 1971, p. 129 ss. “Ao cinema eu ia com espírito de estudioso da sua arte e da sua técnica. Não era o simples espectador em busca da recreação desanuviadora e digestiva. Tanto amolei eu pai com a idéia de produzir filmes em Petrópolis que um dia ele me levou a sério e escreveu carta ao comendador Guazzoni, diretor da Cines, insinuando acordo de co-produção. Sim, sou o pioneiro frustrado da co-produção. Recebemos uma resposta negativa mas muito cortês. A Cines vivia fazendo espetáculos monumentais como Quo Vadis?

Em 1920, Vittorio Capellaro conhecido pela sua preocupação em levar às telas os romances clássicos da literatura brasileira, realiza Os Garimpeiros. Havia descoberto em suas leituras, em sua segura integração à cultura brasileira, a beleza do livro de Bernardo Guimarães e suas imensas possibilidades em imagens. Nesse filme, graças ao engenho de Paulo Benedetti, de quem foi empregada a Cinemetrofonia na famosa modinha Hei de Amar-te Até Morrer. Capellaro concebeu uma cena avançadíssima para seu tempo, as imagens dos personagens refletidas num lago, evidentemente que de cabeça para baixo; os espectadores, não acostumados a tais liberdades, começaram a vaiá-la, só se apercebendo da gafe quando a câmera lentamente começou a levantar-se mostrando os intérpretes.

Guilherme Rogato estabelecendo-se em Maceió, capita do estado de Alagoas funda a Rogato Filme e filma O Carnaval de 1921 e depois A Inauguração da Ponte de Cimento em Vitória, Quebrângulo. Entre 1925/26 realiza Terra de Alagoas, documentário exibido em 1927. Junto com Edison Chagas, de Pernambuco, funda a Alagoas Filme e realiza em 1931 Um Bravo do Nordeste, primeiro longa-metragem alagoano.

Gilberto Rossi, natural de Livorno foi um dos mais atuantes técnicos do Cinema feito em São Paulo. Realizou inúmeras fitas naturais patrocinadas mas produziu os seguintes filmes posados: Quando Deus Castiga, 1919; Exemplo Regenerador, 1920; A Culpa dos Outros, 1920; Prelúdio que Regenera, 1921; Do Rio a São Paulo Para Casar, 1921; Carlitinhos, 1921; O Segredo do Corcunda, 1924; Gigi, 1925; Fragmentos da Vida, 1929; A Escrava Isaura, 1929; Palhaço Atormentado, 1946 e Os Mistérios do Campo Santo, 1952. Depois desse último dedica-se à linha de cinejornais da sua empresa, a Rossi Filmes.
Eugenio Centenaro adotou o nome artístico de E.C. Kerrigan e tornou-se uma figura mitológica do Cinema Brasileiro. Dizendo-se diretor norte-americano, egresso dos estúdios da Paramount, apresentava-se como um senhor de aparência distinta, de botas e culote, fumando cachimbo e falando pelos cotovelos. Fazia-se chamar conde Eugenio Maria Piglinioni Rossiglione de Farnet, o que explicava o seu sotaque italiano. Vamos encontrá-lo onde se filmasse: Em Campinas, São Paulo, dirigindo Sofrer Para Gozar, 1924, e A Carne, 1925. Na Capital paulista, ainda em 1925, dirigindo Quando Elas Querem. Em Guaranésia, Minas Gerais, 1926, à frente de Corações em Suplício. Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Amor Que Redime, 1928 e Revelação, 1929. 

Benedetti filme

Instalada no nº. 153 da Rua Tavares Bastos, uma rua que com seus ziguezagues ascendentes mais parece traçada pelos cenógrafos do filme O Gabinete do Dr. Caligari, no Catete, misto de residência e laboratório. Nela trabalhavam além do dono, sua mulher, Antonieta, Rosina Cianello, prima, Yolanda e Milde Micheline e C, Leonello, que era eletricista. Todos de sua equipe sabiam descarregar um chassis no escuro, enrolar negativo nos teares e levá-los às cubas de revelação o tempo necessário, fazer uma marcação de luz ou carregar um copiador. Benedetti aí viverá o resto de seus dias. Inicialmente dedica-se à confecção de letreiros em português para os filmes estrangeiros que os exibidores compravam e faz trabalhos de laboratório para outros realizadores como Francisco de Almeida Fleming (1900-1999), de Minas Gerais, a quem Benedetti assessora no processo America-Cine-Fonema revelando e copiando os curtas desse pioneiro.

Grande prêmio pelo filme musical

Entre 1922/23 realizou-se no Rio a Exposição Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil. Segundo o art. 43 do Regulamento do certame, os expositores julgados pelo juri, dignos de uma alta consideração pela importância e valor absoluto de seus produtos, seriam premiados com distinções variadas, a mais alta delas o Grande Prêmio. Pois bem, o Júri para a classe 8 (cinema e fotografia), composto entre outros por dois veteranos da cinematografia nacional: Alberto Botelho (1883-1973) e Antônio Leal (1876-1946), o realizador de Os Estranguladores, 1908, um dos primeiros filmes de ficção brasileiro, outorgou a Benedetti o Grande Prêmio pelo invento do “filme cinematográfico musical”, que lhe foi entregue no dia 22 de outubro de 1923. Benedetti requereu e obteve uma nova patente e funda a Benedetti Filme.

Em São Paulo Arturo Carrari instala a Escola de Artes Cinematográficas Azzurri que como outras aparecidas na década de 20 ficaram muito mal afamadas, devido a constantes denuncias de que estria desencaminhando moas. Era atividades típicas de cavadores mais dispostos a obter dos alunos os recursos e equipe para a aventura da realização.

As “escolas” de cinema eram duramente atacadas pela imprensa que as apontava como antros de “cavação”, como se dizia, os moços e moças que nelas se inscreviam seriam incautos que se deixavam enganar pela lábia dos falsos professores. Em São Paulo a mais notória dessas escolas era a Azzurri que com um elenco integrado pelo corpo discente realizou em 1922  Amor de Filha. O Misterioso Roubo dos 500 Contos do Banco Italiano de Descontos, também de 1922, volta a mostrar como a Escola de Artes Cinematográficas Azzurri estava ativa. O filme contava a história rocambolesca de um famoso assalto, havendo sido, por algum tempo, proibido pela polícia.

Dois ex-alunos da Azurri, Aquiles Tartari e Francisco Madrigano fundam suas próprias escolas. A do primeiro, Escola Anhangá realiza Piloto 13, 1929 e Amor e Patriotismo, 1930. A do segundo, Escola Internacional, de onde surgem quatro produções: Filmando Fitas, 1926; Orgulho e Mocidade, 1928; Os Milagres de N. Sra. da Aparecida, 1927 e Enquanto São Paulo Dorme, 1929, os três últimos dirigidos por Madrigano.

Em 1924, Alberto Traversa dirige O Segredo do Corcunda, drama ambientado numa fazenda, mais uma vez apresentava o clássico triângulo amoroso, não sendo esquecido tudo que pudesse agradar aos apreciadores do gênero policial com uma trama folhetinesca.

Nesse mesmo ano, em seu estúdio-laboratório feito numa adaptação em antigo sobrado,  Paulo Benedetti instala sua produtora, a Benedetti Filmes cuja produção inicial A Gigolette, é a evocação de um carnaval com enredo começando numa terça-feira gorda, dirigido por Vittorio Verga e utilizando a sua Cinemetrophonia.

Em Minas Gerais, Igino Bonfioli, estabelecido com ateliê fotográfico em Belo Horizonte, começou em 1920 a realizar filmes publicitários e também os principais acontecimentos sociais e políticos ocorridos na capital mineira.  Em 1923 produz e dirige e fotografa A Canção  da Primavera e em 1929 faz a fotografia de A Tormenta.

Enquanto isso no Rio Grande do Sul, em 1923 Carlos Comelli realiza No Pampa Sangrento ou Pampa Ensangüentado, longa-metragem mostrando a visão oficial da Revolução que eclodira, entre fações políticas entre republicanos e federalistas, maragatos e chimangos, filmando as legiões gaúchas e cavalo, prontas para a luta, armadas de lanças, e uma cena antológica; o primeiro plano de esporas e botas, movimento lento ara cima mostrando bombachas, análise completa da indumentária do homem do campo do extremo-sul, até chegar a quem o vestia, o lendário Honório de Lemos. No ano seguinte Comelli realiza O Desembarque das Tropas Baianas e também Centenário da Colonização Alemã. Nesse mesmo anos, 1924, Italo Manjeroni realiza Obras do Cais do Porto.

Data de 1925: Grêmio Porto-alegrense e S.C. Pelotas, realização de Ludovico Rossi e Antônio Bagani, que em 1926 lançam Caravana Paulista.

Pedro Comello estabelecido com um ateliê fotográfico em Cataguases, Estado de Minas Gerais, quando Humberto Mauro esta filmando Valadião, o Cratera, em 9,5 milímetros, com uma câmara Pathé Baby, para amadores, revela que possuía uma câmara de 35 milímetros, profissional. E é quando começam, nessa bitola, os trabalhos de Os Três Irmãos, filme não terminado para dar lugar à fundação da Phebo Sul-America.

Comello iria ser o responsável pela fotografia de Os Três Irmãos, e com as duas primeiras produções da nova empresa, que foram Na Primavera da Vida, 1925 e O Tesouro Perdido, 1926.

O inicio da formação nos arcanos da sétima arte de Humberto Mauro, o pai do Cinema Novo brasileiro está assim fortemente marcado pela influência de Pedro Comello que não concordando com os argumentos selecionados por Mauro para a filmagem , ele funda a Atlas Filme e realiza Senhorita Agora Mesmo interpretado por sua filha Eva Nil. Apesar da excelente qualidade da fotografia de Pedro Comello o filme era um trabalho honesto e curioso pelos aspectos mostrados de uma cidade interiorana, nem assim Senhorita Agora Mesmo, 1926, apresentava a qualidade dos filmes de Humberto Mauro.

Possuindo a melhor aparelhagem do Rio e com conhecimento adquirido dos problemas de produção, distribuição e exibição, que obteve com suas experiências anteriores, Benedetti decide produzir filmes longos de ficção. Chama seu compatriota Vittorio Verga para dirigir A Gigolette e O Dever de Amar, ambos lançados em 1924. O primeiro é um sucesso de público com suas danças sincronizadas, que provocaram alvoroço nas platéias. O segundo, lançado no dia 29 de dezembro de 1924, foi sabotado pela distribuidora Empresa Matarazzo. Além disso, Pedro Lima e Ademar Gonzaga se indispõem contra o diretor e Verga é obrigado a se afastar.

Benedetti então traz duas celebridades italianas: Carlo Campogalliani que se notabilizara em dezenas de filmes como diretor e ator (sua interpretação de Napoleão em Epopéia Napoleônica, 1914, é considerada uma das melhores, senão a melhor do cinema mudo). Sua esposa Letizia Quaranta , que encarnou o personagem Cabiria, 1914 no célebre filme de Pastrone. Associando-se com o produtor italiano Federico Valle, radicado em Buenos Aires, Benedetti promove a primeira co-produção internacional do cinema sul-americano. A Esposa do Solteiro ou A Mulher da Meia Noite, com locações no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Utilizando a Cinemetrofonia Benedetti sincronizou um tango chamado Buenos Aires. O filme foi exibido na Argentina com o título de La Esposa del Soltero e na Itália como Madame Renée, La Moglie dello Scapolo.

Circuito nacional dos exibidores

Em 1926 Benedetti junto com Al Szekler, Mario Novis, André Guimard, Vittorio Verga, companhia Brasil Cinematografia (leia-se Francisco Serrador), Frota Cia., Augusto Pugualioni, Justino Rebelo Amaral, Luís Severiano Ribeiro, Roldão Barbosa, Antônio Tibiriçá, José del Picchia, Gustav Zieglitz e F. Matarazzo, constitui o C.N.E. (Circuito Nacional de Exibidores). Sociedade cooperativa para exploração e confecção de filmes brasileiros. A nova sociedade, com tantos interesses envolvidos realiza um concurso de beleza feminina entre as freqüentadoras dos cinemas dos associados, visando escolher uma estrela para uma produção, e acaba realizando um filme de reportagem, que a imprensa da época tascou como cavação. Benedetti que presidia a C.N.E. se afasta e Verga consegue o financiamento para o filme que dirige intitulado Sinfonia da Floresta que Pedro Lima e Ademar Gonzaga recebem com escárnio. Ainda em 1929 o Circuito realiza uns curtas sonoros, como Romanza, com Vicente Celestino mas logo desaparece.

Em 1927 o ítalo-brasileiro Ludovico Persici, residente na cidade de Conceição do Castelo, no Estado do Espírito Santo, desenhou, patenteou e construiu uma máquina capaz de filmar, copiar e projetar filmes, com a qual realizou algumas películas.

Processo de cores naturais

Incansável em sua sede de invenção Benedetti desenvolveu um procedimento de cinema colorido que a imprensa da época chamou de processo de cores naturais.

O processo que Benedetti apresentou em 1927 era aditivo. Quando os enviados da Fox Filme chegaram ao Rio para escolherem um casal de brasileiros para atuarem em Hollywood, foram, naturalmente, ter ao estúdio da Benedetti Filme, então o melhor que havia. Lá, José Matienzo e Paul Ivano (1899-1982), o cinegrafista preferido de Rodolfo Valentino, puderam assistir aos testes coloridos realizados por Paulo Benedetti e interpretados por Lia Torá e Olímpio Guilherme, o casal escolhido.

Espalhada a notícia Benedetti recebeu propostas de compra do invento, inclusive de uns ingleses que ofereceram dez mil libras. Contudo, o inventor se recusou a vendê-lo. Silva Nobre no seu livro À Margem do Cinema Brasileiro escreve: “Para aqueles que recordam, o processo utilizado por Benedetti superava e muito, pela nitidez, claridade e perfeccionismo, as mostras estrangeiras que mais sucesso fizeram nas telas brasileiras”.

Qualidade técnica do laboratório

Investindo em equipamentos o laboratório de Benedetti no final dos anos 20 era o melhor do país. Nele foram revelados, copiados, e, é claro, legendados, os filmes de Humberto Mauro: Tesouro Perdido, 1927: Brasa Dormida, 1928 e Sangue Mineiro, 1929. Também Carmen Santos utilizava seus serviços. Foi Benedetti quem introduziu a técnica de revelação de filmes pancromáticos, substituindo a película ortocromática, fazendo inclusive o perfeito trabalho de laboratório (fusões) de Limite, de Mario Peixoto, primeiro filme brasileiro inteiramente fotografado com película pancromática.

Barro humano

Em 1929 o canto de cisne da Benedetti Filme foi Barro Humano, sucesso de crítica e de bilheteria. Benedetti emprestou sua competência ao grupo de jovens da revista Cinearte para a realização de Barro Humano, um dos melhores filmes do cinema mudo brasileiro. O filme teve uma produção muito demorada. Começou a ser rodado em 20 de novembro de 1927 e foi lançado em 16 de junho de 1929, com sucesso de público e de crítica. Os letreiros foram escritos por Álvaro Moreyra (1888-1964) e desenhados por J. Carlos (1884-1950).

O filme foi exportado para a Argentina onde recebeu o título de Los Venenos Sexuales e também Portugal. Uma das intérpretes de Barro Humano é Gracia Morena, nome artístico de Grazia Strobi Rangel nascida em Gênova, filha de um paraense e uma espanhola. 

Curta musicais sincronizados e falados

Dez dias após a estréia de Barro Humano foi lançado no Rio de Janeiro Broadway Melody, considerada essa data o lançamento do cinema falado no Brasil. Foi uma verdadeira tsunami no mercado exibidor. Todos queriam os filmes sincronizados.

Dessa produção existem registros da exibição em São Paulo dos filmes Anedota, Bole Bole, Galo Garnizé, Vamos Falar do Norte, todos com o Bando de Tangarás, formado por Almirante, Alvinho, Henrique Brito e Noel Rosa. Café com Leite, com Pinto Filho e Calazans; Deliciosa, com Glauco Viana; Estoy Borracho, e Mary, com Francisco Pezzi; Guerra ao Mosquito, com Pinto Filho; Jura e Yayá, com Araci Cortes.

Homem Orquestra

Em uma entrevista à revista Cinearte, 1929, Benedetti afirma que estudou em Lucca, cidade com forte tradição musical desde o século IX e entre os seus músicos mais famosos do século XIX estão A. Catalani (1854-1893) e G. Puccini (1858-1924). Não é de estranhar, portanto, o conhecimento e o bom gosto musical de Benedetti. Sua esmerada educação musical mais seus conhecimentos de relojoeiro o habilitaram a sincronizar música e imagem em movimento. No Rio ele se relacionou com o então muito famoso maestro Luigi Maria Smido, que morreu em 1943, Alberto Nepomuceno (1864-1920) e Vila Lobos (1887-1959). Sua preocupação com a boa música revela-se nas trilhas sonoras que produziu para seus filmes, desde a ária do Barbeiro de Sevilha, em 1912, passando pela opereta Uma Transformista Original, 1915, a modinha Hei de Amar-te Até Morrer em O Garimpeiro, 1920, o tango dos apaches, isto é, ladrões, de A Gigolette, os arranjos do maestro Gaó para Barro Humano e finalmente a série de curtas com artistas do naipe de Araci Cortes (1904-1985), Almirante (1908-1980) e Noel Rosa (1910-1937).

O estudioso italiano Mario Verdone no seu ensaio Il Mondo Sonoro del Film Muto, publicado no volume Colonna Sonora, organizado por Glauco Pellegrini e M. Verdone (Roma, Bianco e Nero, 1967) escreve que Benedetti “Era un vero uomo orchestra. Fu il primo in Brasile a preoccuparsi alla musica adattata alla scene del film”.

Alberto Cavalcanti (1897-1982), o brasileiro que se projetou internacionalmente em vários países, como a Inglaterra, a França e a Alemanha escreve no seu livro Filme e Realidade que “Se as idéias de Benedetti, tão adiantadas para a época, tivessem sido melhor aproveitadas, o cinema no Brasil teria progredido muito mais rapidamente”.

Letreiros sobre as cenas

Benedetti ganhava seu sustento fazendo letreiros para os filmes mudos. No filme mudo os letreiros eram cortados e substituídos por uma tradução em português. Essa tradução era impressa tipograficamente (raramente caligrafada, que era um pouco mais caro, como no caso de Barro Humano) e os cartões eram filmados para substituírem os originais. Era tarefa simples. Com o cinema falado surgiu o problema da língua. Os primeiros filmes falados – como Broadway Melody, eram falados em inglês. Enquanto era uma novidade isso não assustava muito a platéia, que não compreendia a língua, ia ver e ouvir a novidade dos talkies. Mas isso não durou muito e então tentaram dublar os filmes, o que encarecia o produto.

Benedetti que já sabia sincronizar a partitura com a imagem e conhecia o processo de gravar em chapa metálica, . “processo de incisão destinada a produzir decorações em relevo sobre superfície metálica”, 1907, fundamental para a confecção das legendas que são feitas assim até hoje, apresentou para seus clientes, as companhias americanas, a solução miraculosa
Em 1932 Vitorio Capellaro, já com 55 anos, apaixonado pela literatura brasileira, imaginou uma história e encomendou o argumento; queria enfocar a epopéia das bandeiras e realizou O Caçador de Diamantes. Pela primeira vez o eu estúdio é usado para a montagem de interiores, valorizadíssimo graças ao material de iluminação adquirido pelo cineasta-produtor. Visto hoje (o filme foi preservado) comprova  sua qualidade técnico-artística.

Por ocasião do 25 de julho de 1932, no episódio da Revolução Constitucionalista, um cinegrafista italiano de sobrenome Pellai, amigo de Capellaro, foi atingido por uma bala de fuzil e teve um dos braços amputados.

Em 1935 Capellaro faz uma sátira intitulada Fazendo Fita, na qual pretendia retratar o Cinema Brasileiro. Os letreiros de apresentação diziam ser a produtora a S. O. S.; a direção de um maluco, a fotografia de um Cego, o som de um Surdo e o argumento de um Analfabeto. O argumento contava as peripécias por que passava para realizar um filme, coma as condições da época, e, no final, como solução para todos os problemas, os técnicos do filme dentro do filme resolvem voluntariamente se apresentar para ficarem internados no Manicômio do Juqueri.

Os continuadores

No dia 4 de novembro de 1949 Franco Zampari e Cicillo Matarazzo fundam a Cia. Cinematográfica Vera Cruz. Em 1953 é o maior estúdio cinematográfico brasileiro. Do palco do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, os italianos lançam as raízes do nosso cinema profissional. O sucesso da Vera Cruz, o exemplo dos mecenas italianos contagiou outros empresários. E apareceu a Maristela, capitaneada pelos Audrá. Seu inventor foi o italiano Mario Civelli, que se fazia passar por assistente de Rossellini em Roma Cidade Aberta. Mesmo depois do fracasso desta produtora Civelli ainda conseguiu empolgar outros capitalistas para a empreitada da Multifilmes.

Nos anos quarenta repete-se a presença de italianos realizando filmes com o aproveitamento da nossa literatura podendo ser citados Iracema, com direção de Vittorio Cardinalli; Caminhos do Sul, 1949, livro de Ivan Pedro Martins, produção de Andrea di Robillant; Presença de Anita, 1951, livro de Mário Donato, direção de Ruggero Jacobbi; O Comprador de Fazendas, 1951, livro de Monteiro Lobato, direção de Alberto Pieralisi; Floradas na Serra, 1954, livro de Dinah Silveira de Queirós, direção de Luciano Salce; e Seara Vermelha, 1963, livro de Jorge Amado, direção de Alberto D’Aversa.

Por esse tempo, estão entre nós também alguns bons diretores-de-fotografia, como Ugo Lombardi, Alberto Attili, Amleto Daissé e, destacando-se, Aldo Tonti, com extensa e importante filmografia. Diretores também com experiência no cinema peninsular trouxeram a sua contribuição, como Ricardo Fredda que na Atlântida dirigiu O Caçula do Barulho, 1949 e Camillo Mastrocinque que veio contratado para um empresa de vida efêmera, a INCA (Indústria Nacional de Cinema Artístico) realizando Areão, apresentado na Itália como La Prigione di Sabbia.

Sem dúvida, tato os cameramen e iluminadores quanto dos diretores e produtores contribuíram para o aperfeiçoamento de profissionais brasileiros, já que Vera Cruz e Multifilmes eram centros nos quais estavam, lado a lado, os ingleses da Ealing e os italianos de Cinecittá. Tínhamos, de certa forma, uma tradição de trabalho em cinema, mas tudo muito familiar. A convivência com técnicos de outros países de cinematografia mais adiantada foi decisiva para a melhoria do padrão dos nosso filmes, constituindo-se nua verdadeira revolução.

Devemos lembrar ainda o nome de Mario Civelli e de outros nascidos aqui ou na Itália, os Stamato, os Latini, Tambellini, Scollamieri, Gianelli, Massaini, Pongetti, Tartaglioni, Campiglia, Carrari, até chegarmos aos Zampari, Carlo e Franco, construtores dos magníficos estúdios da Vera Cruz em São Bernardo do Campo. 

O ítalo-brasileiro Rogerio Sganzerla dirige O Bandido da Luz Vermelha, 1968, ponto de transição entre a estética cinemanovista e a ruptura marginal. Ainda dentro da produção da Boca do Lixo paulista dirige seu segundo longa, A Mulher de Todos, 1969, ambos caracterizados por um diálogo irônico e avacalhado com o cinema de gênero e a narrativa clássica.

Aparece o cineasta Andrea Tonacci com o filme intitulado Bang Bang, 1970. Uma obra prima articulada em torno de seqüências que se repetem, soprepõem-se livremente, embora sejam fortemente caracterizadas em unidade pelo estilo que aparece na fotografia marcada, na trilha sonora, nos cenários e nos diálogos e na própria ação.

Sganzerla realiza o curta metragem Linguagem de Orson Welles, 1985 e  Nem Tudo é Verdade, 1987, longa ficcional sobre o cineasta americano em terras brasileiras. Desenvolve-se aqui o tema do fazer cinema no Brasil, agora como tarefa hollywoodiana às avessas. Em 1998 lança Tudo é Brasil, documentário de longa-metragem, com imagens de Carmen Miranda e Grande Otelo, entre outros, sobre os bastidores do malogrado It’s All True, rodado no Brasil nos anos 40 pelo criador do Cidadão Kane.

 Bibliografia

CAPELLARO, Jorge J. V. e FERREIRA, Paulo Roberto. /Verdades Sobre o
•Início do/ /Cinema no Brasil/. Rio de Janeiro: Funarte, 1996.
•GALDINO, Márcio da Rocha. /Minas Gerais, Ensaio de Filmografia/. Belo
•Horizonte: Secr. Municipal de Cultura, 1984.
•GONZAGA, Ademar. /A História do Cinema Brasileiro/. I A verdade
•surpreendente veio com o próprio diabo, /Jornal do Cinema/, n.º 39,
•agosto 1956, p. 51/54. II, Onde o cinema se firma como a diversão dos
•brasileiros. Idem, n.º 40, maio 1957, p. 47/51.
•GERVEREAU, Laurent. /Da Foto ao Filme/ in /O Brasil de Marc Ferrez/.
•São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2005.
•NORONHA. Jurandyr. /A Longa Luta do Cinema Brasileiro/. Os Pioneiros.
•Rio de Janeiro: Funarte, 2002.
•*______. */No Tempo da Manivela./ Rio de Janeiro: Ed. Brasil-América
•-Ebal, Kinart, Embrafilme, 1987.
•PFEIL, Antônio Jesus. /Cinematógrafo e o Cinema dos Pioneiros/, in
•/Cinema no Rio Grande/ /do Sul/. Porto Alegre: Unidade Editorial,
•1995. Caderno Ponto & Vírgula 8.