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A Caixa da Nonna

Por Scyla Bertoja

Minha filha foi morar na Itália há muitos anos. Minha neta nasceu lá. É claro que não nos vemos constantemente. Não é possível. Então, várias vezes por ano eu costumo mandar pacotes com pequenas coisas que elas apreciam e que têm dificuldade em encontrar. Gostam de ter coisas que ninguém tem. É muito feminina essa preferência pelo exótico e pela exclusividade. Um item que sempre faz parte desses pacotes é o CD brasileiro – e não é pirata -. São as trilhas sonoras de novelas brasileiras, com músicas nacionais e internacionais. E também as demais novidades do mercado fonográfico, dentro do gosto de cada uma. Além do que, gravo em fitas cassete os programas de rádio, com locução, música, publicidade, piadas, porque elas gostam de ouvir a língua portuguesa falada à moda dos gaúchos. Quando vou até lá, há sempre uma lista de encomendas, do chinelo de dedos com a bandeira do Brasil até o sabonete da Amazônia. Da camiseta com estampas brasileiras ao livro do Jabor, revistas e recortes de jornais com assuntos de política. Não duvido que, ao ler os jornais, minha filha utilize expressões do tipo “mamãe não quer que eu volte nunca mais”. Lamento. Mas, fora as notícias desagradáveis, é a maneira de se sentirem mais perto da gente, de serem mais brasileiras, ainda que na distância. Falamos muito seguidamente por telefone, e elas vão fazendo as encomendas para a próxima remessa. Tudo bem. Para mim, é um imenso prazer sair à cata dos mais diversos artigos solicitados. Mas existe, também, o outro lado desta história. A contrapartida. Elas  falam de coisas que estão guardando para mim. Dizem que estão reunindo lembrancinhas,  recortes de jornais e revistas, receitas culinárias, um que outro CD italiano, alguns livros, e que tão logo a “caixa” esteja cheia, farão a remessa. E assim vamos falando sempre dos presentes que estão na dita caixa, mas que ainda não vieram porque falta o livro das poesias do Pascoli, os prognósticos de Branco para o ano novo, a receita do meu prato preferido, etc...

No período decorrido entre a primeira encomenda que mandei, até esta data, passaram-se alguns anos. Fui visitá-las seguramente umas três vezes. Elas também vieram ao Brasil. Mas esqueceram de trazer a caixa. Temos tantos assuntos para falar,  novidades para contar, passeios para fazer, que, da mesma forma, quando chego lá, esqueço de pedir que me mostrem a caixa, que a estas alturas, deve estar transbordando. E volto sem ver o que há dentro do misterioso “contenitore”. Aliás, nem o conheço. Será um recipiente de cartão? De plástico? Será uma simples caixa de sapatos? Será um saco plástico cujo conteúdo posteriormente será colocado numa caixa? Não sei. 

Enfim, seja como for, continuo no aguardo da remessa dessa arca de mistérios insondáveis, que se esconde da família a cada visita minha. Parece-me ouvir: Mamma! Ho trovato le poesie di Pascoli! – Bene, bene. Adesso prova a trovare la scatola della nonna. Non mi ricordo dove l’ho vista l’ultima volta, Mãe! Encontrei as poesias do Pascoli! – Está bem, está bem. Agora vê se encontra a caixa da vovó. Não lembro onde a vi pela última vez. Quanto a mim, fico satisfeita em saber que seguidamente sou lembrada com carinho. Sempre recebo presentes no momento do meu retorno ao Brasil. Estes não fazem parte do conteúdo da caixa. Já me ocorreu que talvez a caixa nem exista, e fazemos isso continuadamente só para manter tradições, a nossa história, os nossos sonhos, e os motivos para estarmos em contato permanente!? Talvez seja um daqueles jogos de família de que fala Alzira Collares, uma amiga pedagoga que costuma sabiamente retirar da psicologia os rótulos para os enigmas da vida em família.

* Scyla Bertoja é escritora e poetisa, Licenciada em Letras pelo UNIRitter, com Especialização na FAPA. Nasceu em Júlio de Castilhos (RS), morando em Porto Alegre há mais de trinta anos. Possui textos publicados em revistas, jornais, coletâneas e antologias. Lançou o livro Crônicas, pela Editora Ottoni (SP), em outubro/2005. E-mail: bertoja@terra.com.br