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Imperialismo de Roma ajuda a compreender o presente

Os vestígios do imperialismo de Roma servem de ferramenta para o estudo e a compreensão do mundo atual. A arqueologia tem tido papel fundamental no estudo da teoria de romanização. “Restos materiais encontrados por arqueólogos permitem localizar facilmente as classes poderosas”, diz o estudioso Richard Hingley, convidado para ministrar, até dia 16, um curso na Escola de Altos Estudos da Capes. Professor do Departamento de Arqueologia da Universidade de Durham, na Inglaterra, Hingley propõe uma revisão nas abordagens sobre a teoria de romanização. Para ele, que passou a semana na Unicamp, os estudiosos precisam pensar na globalização desta teoria. Acompanhe a entrevista Hingley divulgada pela Comunicação da Unicamp:

Como a arqueologia tem contribuído para as atuais discussões sobre a teoria de romanização?

A abordagem mais tradicional do imperialismo está focada em fatos antigos e, desde o século 16 até início do século 20, a história era contada a partir da elite. Restos materiais analisados por arqueólogos permitem localizar as classes mais poderosas. Os restos materiais têm mais força que os textos antigos. Elementos como o Coliseu, por exemplo, traduzem a grandeza do imperialismo. Esses vestígios podem ser usados para desafiar essas idéias.

E quando o discurso começou a mudar?

No início do século 20, as pessoas estavam influenciadas pelo pensamento científico e o período era chamado de Era de Ouro. As discussões contra o imperialismo tiveram mesmo início nas décadas de 1960 e 1970. Na época, começaram vestígios de pessoas simples como vasos de cerâmica e restos de casa dessas pessoas. Os velhos modelos imperiais que residem por trás da romanização não mais parecem funcionar.

O interesse entre pesquisadores jovens por esta área de estudo é crescente?

As relações de poder do mundo contemporâneo fazem com que os estudiosos se interessem pelo mundo antigo. Nós estudamos o passado para se entender o presente, mas ao mesmo tempo, criamos o passado de uma perspectiva presente. Por isso falo sobre a globalização do mundo antigo. Nosso próprio mundo tornou-se um mundo global. Somos os teóricos da globalização de nossa época. Existe um livro chamado Império, que para abordar problemas da globalização, começa falando de Roma. Os arqueólogos da minha geração foram ensinados a não ir em busca de grandes generalizações, a separar o passado e o presente, mas os estudiosos de hoje não acreditam que seja possível separar.

Esses resquícios do imperialismo interferem nas negociações referentes à globalização?

Quando houve a queda do Muro de Berlim, todos pensaram que o mundo não teria mais fronteiras, mas, infelizmente, a quantidade de muros aumentou. Os muros são violentos, negativos, excluem as pessoas. Tem caso de muro no México, na Inglaterra. A fronteira que os israelenses construíram é a que mais impressiona, por ser extensa e dividir cidades. Realizo um trabalho sobre a Muralha de Adriano, entre Inglaterra e Escócia, e vejo como as pessoas se iludem com as ações separatistas. Eles mostram uma imagem positiva do muro, uma imagem de que a nação britânica é multicultural quando na verdade trata-se de um acampamento militar romano, preparado para matar pessoas. Hoje é muito importante o relacionamento de pessoas de diferentes origens, mas temos de tomar cuidado para não fazer imagem idealizada, ou seja, uma imagem positiva do que é negativo. Isso durou 300 anos, mas temos de ter perspectiva otimista de que os muros sempre acabam.